O risco de uma empresa começa muito antes da inadimplência
Entre uma empresa saudável e uma inadimplente existe uma zona intermediária em que mudanças no comportamento financeiro podem começar a aparecer | Foto: Canva *Por João Betenheuzer, CRO e Co-Founder da Celero Empresas raramente entram em dificuldades financeiras de um dia para o outro.
Antes de um atraso relevante, de uma renegociação mais profunda ou de um pedido de recuperação judicial, normalmente existe um período em que a operação começa a dar sinais de pressão.
O caixa perde fôlego, a dívida ocupa mais espaço e novas linhas de crédito podem começar a servir mais para sustentar compromissos anteriores do que para financiar crescimento.
Uma pesquisa desenvolvida pela Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas (EESP-FGV) ajuda a dimensionar essa questão.
Na tese de mestrado “Zombie firms no Brasil: fragilidade financeira, contágio setorial, pandemia de covid-19 e recuperação judicial”, do economista Caio Szumanski, foram analisados dados trimestrais de 375 companhias listadas na B3 entre 2010 e 2024.
O estudo concluiu que a presença das chamadas “zombie firms” — empresas que seguem em operação apesar de uma situação persistente de fragilidade financeira, com baixa capacidade de geração de resultado e elevada dependência de crédito —, tem caráter estrutural, e não apenas cíclico, no Brasil.
A metodologia utilizada reforça a importância de olhar a trajetória.
Entre os critérios utilizados para identificar essas empresas está uma média do Índice de Cobertura de Juros inferior a 1 durante os últimos oito trimestres, indicando incapacidade persistente de o lucro operacional cobrir as despesas financeiras.
O estudo também encontrou uma discrepância entre a incidência dessas empresas e os pedidos formais de recuperação judicial e foi estruturado para investigar a existência de sinais antecedentes de fragilidade financeira antes do ingresso nesse regime.
Isso importa especialmente para o mercado de crédito: a inadimplência é um indicador importante, mas registra algo que já aconteceu.
O Banco Central considera inadimplentes as operações com pelo menos uma parcela em atraso superior a 90 dias.
Para uma instituição que precisa decidir hoje se concede crédito ou qual limite oferece, esperar esse estágio significa trabalhar com um sinal relativamente tardio.
Entre uma empresa saudável e uma inadimplente existe uma zona intermediária em que mudanças no comportamento financeiro podem começar a aparecer.
A própria pesquisa encontrou, entre as empresas classificadas como zumbis, aumento de 8,1% no uso de crédito de curto prazo e redução de 10,7% no de longo prazo, movimento associado à maior vulnerabilidade a choques de liquidez.
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