Programas de Governo prometem datacenters, IA e fim da censura nas redes
Programas de governo formam um gênero literário pouco apreciado: os leitores são não muitos, o tempo em que os textos recebem atenção é curto, e, passada a eleição, eles figuram apenas em reportagens sobre promessas não cumpridas. Isso é uma pena, já que através dos programas de governo se joga um interessante jogo de metades: por um lado eles revelam como os candidatos querem ser conhecidos, impondo suas narrativas; por outro, a ausência de temas e de enfoques também pode ser igualmente revelador.
Nas pautas sobre tecnologia, os programas de governo revelam o que as campanhas querem levar adiante sobre regulação da Internet, big techs e inteligência artificial.
Se existe uma unanimidade nos programas de 2026, ela tem a forma de um galpão refrigerado cheio de servidores. Todo mundo quer data centers instalados no Brasil.
O programa de Lula promete fomentar "o desenvolvimento do ecossistema nacional de tecnologia digital, desde a cadeia de datacenters até os serviços de nuvem". O de Flávio Bolsonaro quer "transformar o país em polo global de data centers sustentáveis".
Caiado oferece "ambiente tributário competitivo" para o setor. Zema lembra que as maiores empresas do planeta devem investir "cerca de US$ 750 bilhões em 2026 na construção de data centers e infraestrutura digital" e avisa: "sem as condições certas, esse capital irá para outro lugar".
Renan Santos, do Missão, quer fazer do Brasil "o maior exportador de inferência computacional do hemisfério ocidental", transformando o Nordeste, nas palavras do programa, na "Arábia Saudita do Brasil". A energia limpa e barata é o argumento de todos. A nova vocação nacional, ao que parece, é hospedar a nuvem alheia.
As diferenças estão na letra miúda. Lula condiciona a expansão a "salvaguardas socioambientais obrigatórias" e a "contrapartidas de conteúdo local e capacidade computacional para o mercado interno". Caiado também cobra contrapartidas, com eficiência hídrica, energia nova e renovável, capacidade reservada para universidades. Já Flávio, Zema e Renan apostam na fórmula de menos imposto, menos burocracia, menos regras.
Quando o assunto deixa de ser a infraestrutura e passa a ser o conteúdo que circula nas redes, os programas falam línguas bem diferentes.
De um lado, o programa de Lula promete "avançar ainda mais na regulação democrática das redes sociais e das plataformas digitais, de modo a impedir que elas difundam desinformação, acolham campanhas de ódio e outras formas de comunicação nocivas para a democracia". A liberdade de expressão aparece, mas como algo que a regulação protege, afirmando que "nenhuma democracia sobrevive sem uma opinião pública plural e sem a garantia plena da liberdade de expressão".
Do outro lado, o programa de Flávio Bolsonaro não menciona big techs ou redes sociais como problema a regular. Sua proposta na área é o "Tesouraço na Censura", resumida como o plano para "acabar com qualquer estrutura estatal que funcione como um 'Ministério da Verdade', encarregada de vigiar, rotular ou punir o que as pessoas dizem".
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