Uma via de mão dupla
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O capital estrangeiro entrou com força no Brasil nos primeiros meses do ano. Depois perdeu fôlego e, agora, parte desses fluxos voltou a sair .
Não há contradição nisso, pois o Brasil ficou mais atraente numa nova geografia dos fluxos internacionais, que está sendo redesenhada num mundo estruturalmente mais volátil.
Por mais de uma década, investidores globais concentraram recursos nos Estados Unidos , por conta do seu crescimento forte, mercados profundos, tecnologia muito rentável e o dólar como moeda de reserva. O capital atraía capital.
Algo mudou. Preços de ativos já muito elevados, a incerteza comercial e geopolítica e a busca por diversificação levaram investidores a olhar de novo para outros mercados, especialmente os emergentes. E, para esses mercados menos profundos, pequenas realocações de carteiras gigantescas pesam muito.
O Brasil sentiu os efeitos dessa mudança, embora os diferentes tipos de fluxos contem histórias distintas.
O fluxo cambial líquido foi positivo em US$ 17,8 bilhões (R$ 92,2 bilhões) no primeiro semestre, melhor resultado em oito anos, o que contrastou com a saída de US$ 14,3 bilhões (R$ 74,1 bilhões) um ano antes. O resultado, porém, veio do canal comercial: o canal financeiro permaneceu negativo no semestre. Ao mesmo tempo, houve ingresso relevante de estrangeiros em ativos domésticos em diferentes momentos.
O começo do segundo semestre reforçou outra característica desse movimento: sua volatilidade. Em agosto, a saída de estrangeiros da B3 ganhou força: até o dia 14, já somava cerca de R$ 18,1 bilhões, superando, em apenas duas semanas, os R$ 14,9 bilhões retirados durante todo o mês de maio.
O investimento direto de estrangeiros no país, por sua vez, somou quase US$ 47 bilhões (R$ 243,5 bilhões) no semestre, 33% acima de 2025 . Convém separar três determinantes diferentes.
O primeiro é o carry. Juros muito superiores aos das economias avançadas oferecem retornos atraentes e ajudam a financiar o balanço de pagamentos, mas são facilmente reversíveis. A ironia é que parte dessa atratividade vem das fragilidades que nos obrigam a pagar juros tão altos. Ser atraente porque produzimos muito é diferente de ser atraente porque pagamos muito para compensar nossos riscos.
O segundo é a rotação internacional de portfólios. Depois de anos de concentração nos EUA, investidores buscam diversificação. O Brasil oferece escala, mercado financeiro líquido, reservas elevadas, câmbio flutuante, alimentos, energia e minerais , atributos relevantes num mundo preocupado com segurança energética e cadeias produtivas.
O terceiro é o investimento direto, que traz capital comprometido com empresas e ativos produtivos e tende a permanecer por mais tempo.
No mundo pós-2008, choques negativos de crescimento abriam espaço para os bancos centrais cortar juros e estabilizar os mercados. Hoje, choques de oferta podem combinar menor crescimento e mais inflação, restringindo essa reação. A inflação ficou menos previsível, cadeias globais se fragmentaram e a política fiscal passou a pressionar os juros longos.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em noticias.uol.com.br — o conteúdo pertence a UOL Notícias.