Meio político, meio influenciador, meio confuso
É assim, no imaginário comum, a ideia de uma cidade de interior: há uma pracinha, um coreto, a igreja e os comércios ao redor. Tem um pipoqueiro, crianças brincando, pombas, idosos sentados e tem, pra lá e pra cá, cidadãos e cidadãs, em seus afazeres e em seu ócio também. Tudo se concentra naquele espaço, com estruturas bem definidas. O tamanho dos prédios e a torre da igreja são a sinalização dos poderes dominantes no horizonte que todos enxergam.
Quando Marshall McLuhan elaborou sua teoria sobre a Aldeia Global em 1962, tinha em mente que as novas tecnologias teriam potencial de encurtar distâncias e reduzir o planeta ao conceito idealizado de uma aldeia, um mundo em que todos estariam interligados de alguma forma.
Ele não errou. Cá estamos nós plenamente globalizados. Mas, 64 anos depois, um efeito colateral reverso se aplica em nossa realidade: cada aldeia, a seu modo, também reflete o mundo todo em si.
E por aldeias a gente nem pode mais fazer uso da imagem de vilarejos bucólicos, porque também cabem nesta definição as bolhas — físicas ou virtuais — em que habitamos e transitamos.
O fenômeno de migração de audiência de meios tradicionais (como tv, jornal, rádio e revistas) para plataformas digitais já influencia todo tipo de experiência de consumo de conteúdo. Vale para entretenimento, esportes, negócios e também para notícias.
Uma das consequências desse processo é que a televisão tradicional tem sido cada vez mais dominada pela estética, formato e linguagem nascidos em ambientes como TikTok, Instagram e YouTube - vide as novelas verticais, a Cazé TV e toda onda de jornalistas influenciadores. Sob o mesmo efeito, programas de rádio e sites de notícias também estão, aqui e ali, se ajustando a um padrão estranho às suas origens, mas inevitável, como tentativa de dialogar com um público que já não se reconhece na forma linear e unilateral de comunicação que reinou por tanto tempo ( já comentei por aqui que não acredito que essa seja uma questão exclusivamente geracional).
E por "reinou por muito tempo" me refiro à ideia de que até mais ou menos 2010, a mídia se resumia a grandes canais de difusão. Existiam veículos de nicho e meios de menor alcance, mas de forma geral, se um programa, marca ou figura pública desejasse alcançar grande parte da população com sua mensagem, bastava o uso de não mais que dois canais de tv, dois jornais, uma revista semanal e três estações de rádio. Repetia-se isso por alguns dias e oito em cada dez brasileiros receberiam a mensagem. Esse plano servia para vender carro, poupança em banco, cigarros, palhas de aço, chinelos, geladeiras em suaves prestações e também, os nada suaves discursos de candidatos a cargos públicos nas eleições.
O restante dos meios servia para refinar a conversa. As revistas segmentadas, jornais locais, mídia exterior, panfletos e toda estratégia de comunicação individual eram espaços onde o funil ia se fechando para aprofundamentos e desdobramentos.
Nesse contexto, o horário eleitoral obrigatório na tv e no rádio duas vezes ao dia era um instrumento de tortura midiática incontornável ao qual estávamos submetidos, crianças e adultos. E caramba, funcionava.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em www.uol.com.br — o conteúdo pertence a UOL Tilt.