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Filme de Grace Passô usa o fantástico para expurgar traumas de pessoas negras

UOL Notícias ·
Filme de Grace Passô usa o fantástico para expurgar traumas de pessoas negras

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Grace Passô lançou seu primeiro longa-metragem como diretora no Festival de Gramado , na semana passada, e ainda assim parecia ser uma velha conhecida do tapete vermelho. Enquanto seu filme, " Nosso Segredo ", agora já nos cinemas do país, era uma das exibições mais aguardadas do evento, o nome da diretora soava com frequência nos corredores do Palácio dos Festivais.

Em uma entrevista coletiva, Selton Mello, homenageado no evento gaúcho , classificou Passô como uma das maiores atrizes que já viu, tamanha sua "poderosa presença". Os dois trabalharam juntos em um dos episódios de "Sessão de Terapia", série da Globoplay.

Aos 46 anos, o currículo de Passô como atriz é extenso, especialmente nos palcos, onde também se tornou dramaturga. No cinema , protagonizou títulos como "Temporada", "No Coração do Mundo", "O Dia que Te Conheci" e "Praça Paris". No teatro, venceu dois prêmios Shell por "Por Elise" e "Vaga Carne", monólogo com o qual rodou o país.

"A direção de cinema é pensar várias coisas ao mesmo tempo, algo comum no teatro. Fazer teatro no Brasil te obriga a entender sobre produção", disse ela, de óculos escuros azulados e blazer, na manhã seguinte à exibição de "Nosso Segredo". Coroado como o melhor filme do festival no último sábado, o filme havia estreado em fevereiro numa mostra do Festival de Berlim .

O longa acompanha uma família composta por mãe, tia e quatro filhos, três maiores de idade e Tutu, de nove anos. Logo na primeira cena, o irmão mais velho, interpretado por Robert Frank, diz a um passageiro durante uma corrida de aplicativo que seu pai, única pessoa branca da casa, morreu recentemente.

Apesar da convivência pacífica, há um clima tenso no ar. É como se houvesse um assunto proibido que empesteia o local. O vilão parece ser o luto, até que o desconforto vai ganhando formas sobrenaturais.

Lama escorre pelas paredes por vezes, o teto começa a mofar, e nenhum habitante, com exceção de Tutu, se atreve a frequentar o andar de cima da residência —que, no começo da história, a mãe comenta estar em obra há muito tempo.

A camada de terror que Passô acrescenta à trama se forma sobre o dia a dia aparentemente corriqueiro da família. "Tenho uma obsessão com o estranhamento. Com essa ideia de que algo estranho nos faz olhar de uma forma diferente para as histórias", afirma.

Essa marca está presente em seus trabalhos anteriores como autora. No caso de "Vaga Carne", uma entidade invade o corpo de uma mulher e passa a analisá-la de dentro para fora. Em "Nosso Segredo", a ideia é entender como a ausência pode se tornar insuportavelmente presente.

"Quais são as estratégias para continuar vivendo após grandes traumas, grandes perdas? Eu queria falar sobre o quanto, historicamente, pessoas negras e suas famílias sobreviveram a traumas devido ao afeto. É isso que fez a tragédia colonial não exterminar nosso povo", diz.

A reflexão política permeia detalhes do cotidiano familiar. Em certo momento, por exemplo, o filho mais velho diz que o trabalhador, cansado no final do dia, "não tem mais ouvido para escutar e olhos para ver".

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Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em noticias.uol.com.br — o conteúdo pertence a UOL Notícias.

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