Ela pediu divórcio e levou 5 tiros: fé silencia vítimas em lares cristãos
Ao decidir se divorciar, a psicóloga Luciana Ramalho, 42, foi baleada cinco vezes pelo marido com quem estava casada havia 17 anos. Ela sobreviveu, mas, ao voltar para casa ferida e com dois adolescentes para cuidar, encontrou o desamparo da comunidade religiosa em que cresceu.
Estava passando a viatura policial, quando o policial escutou o primeiro tiro, parou a viatura, entrou para me socorrer, ele atirou na polícia, a polícia atirou nele e eu fiquei oficialmente viúva e sem nenhum apoio, porque a igreja em que eu cresci era uma igreja machista. Luciana, que afirma também ter ficado sem apoio da família e dos amigos, pois todos eram da mesma igreja
Caso de Luciana ocorreu no dia 23 de dezembro de 2017 e representa o desfecho extremo de um fenômeno que afeta milhares de brasileiras nos lares cristãos: o abuso espiritual. Uma pesquisa de 2025 realizada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em parceria com o Datafolha, revela um cenário incontestável: entre as vítimas de violência doméstica no país, 42,7% das mulheres que se identificam como evangélicas e 35% das católicas relatam ter sofrido agressões de seus companheiros ou ex-companheiros.
O debate sobre essa violência invisível voltou à tona com o lançamento do documentário independente "Abuso espiritual: Violência doméstica em lares cristãos", que joga luz sobre o uso da fé para legitimar a opressão de gênero.
Luciana Ramalho explica que o ciclo de abusos começa com a despersonalização da mulher dentro do lar. "No caso, essa mulher durante todo o relacionamento vai sendo objetificada, não é mais uma relação de reciprocidade, aos poucos ele vai se tornando dono dela, dono das vestes, dono do corpo, dono dos desejos", descreve.
O momento da ruptura é o mais perigoso. "Quando ela resolve romper com esse ciclo, ela mexe na ferida dele, justamente essa ferida de domínio, ele manda, ele é, é ele que quer continuar tendo em posse esse objeto", reflete sobre a objetificação que as mulheres sofrem em casamentos abusivos.
Violência extrema, segundo ela, é a reação do agressor à perda de controle público e à queda de sua máscara social. "Muitos agressores têm um lado narcísico, a personalidade narcisista que ele quer mostrar para todo mundo o quanto que ele é bom, quanto que a família é boa, e no caso, quando a mulher resolve sair desse ciclo da violência, ela torna público o quanto que ele não é tão bom assim, porque teve alguém que ousou não querê-lo." Sem o domínio, "ele resolve, por ser o último domínio, acabar com essa mulher", diz Luciana.
Silenciamento também partiu de pessoas religiosas que tentaram impor à vítima uma reconciliação forçada após o crime. "O que eu ouvi de poucas pessoas que se aproximaram de mim que era um sinal de Deus, que eu deveria voltar para a igreja; que isso foi Deus quem fez para que eu precisasse voltar e cuidar da minha alma", relembra.
A experiência traumática abalou profundamente sua fé.
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