Para sobreviver a juros altos, empresas 'fatiam' dívidas
Diante de uma taxa básica de juros que persiste em um patamar de dois dígitos há mais de quatro anos, empresas brasileiras passaram a "fatiar" suas dívidas para sobreviver ao cenário adverso para os negócios. Dados da Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais) mostram que, enquanto o valor das emissões de dívidas cai, o número de operações aumenta.
As debêntures, títulos pelos quais o investidor empresta dinheiro a uma empresa em troca de pagamento de juros, movimentaram R$ 169,8 bilhões no primeiro semestre de 2026. O número representa uma queda de 12,1% em relação ao mesmo período de 2025. As notas comerciais, uma versão mais simples desse empréstimo, somaram R$ 27,1 bilhões, baixa de 11,4%.
Apesar da queda nos valores negociados, o total de operações cresceu. Foram 278 emissões de debêntures (alta de 3,7%) e um salto de 86 para 123 (crescimento de 43%) nas notas comerciais, ano contra ano.
Ainda que a Selic (a taxa básica de juros da economia) tenha sido cortada recentemente pelo Banco Central para 14% ao ano, a expectativa do mercado financeiro é que ela permaneça em patamar elevado. De acordo com o boletim Focus (elaborado pelo Banco Central com base nas projeções de instituições financeiras), ela deverá chegar a 12% só no fim de 2027. Nesse cenário, tomar dinheiro emprestado virou artigo de luxo, na visão de agentes do mercado.
Milene Dellatore, especialista em finanças e sócia-diretora do Grupo Mide, afirma que a queda nos valores das emissões indica, principalmente, uma maior pulverização nas captações. Para ela, em vez de optar por emitir dívida com um custo alto, em operações de grande volume por muitos anos, a companhia capta "apenas o necessário naquele momento" e acompanha a evolução dos juros.
As empresas continuam recorrendo ao mercado de capitais, mas agora fazem operações menores, mais segmentadas e, em alguns casos, divididas em diferentes séries ou momentos. Milene Dellatore, sócia-diretora do Grupo Mide
Rafael Dadoorian, sócio-fundador e head de renda fixa da Convexa Investimentos, vê essa postura como um ajuste de rota e não uma crise. Na visão dele, o custo do dinheiro ainda é alto e, portanto, faz sentido que muitas empresas tenham preferido captar apenas o necessário, o que derrubou o valor médio das operações.
Segundo dados da Anbima, o valor médio das emissões de debêntures era de R$ 720,71 milhões no primeiro semestre de 2025. Esse valor recuou para R$ 610,8 milhões na primeira metade de 2026. Em relação às notas comerciais, o valor médio das emissões caiu de R$ 355,9 milhões no primeiro semestre de 2025 para R$ 220,5 milhões no mesmo período de 2026.
Do outro lado do balcão, o investidor também faz contas - e elas não ajudam em nada as empresas. Estudo feito por Gustavo Gukovas, diretor da plataforma de dados financeiros Comdinheiro, mostra que 59,4% das emissões de debêntures estão atreladas ao CDI (principal indexador da renda fixa que segue a Selic), pagando em média CDI + 2,72%. Enquanto isso, o Tesouro Selic, título público emitido pelo governo, entrega atualmente Selic + 0,07%.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em economia.uol.com.br — o conteúdo pertence a UOL Economia.