O dia em que um deboche virou sermão
Eu tinha uns vinte e dois anos e estudava em Manaus quando ouvi a frase.
Alguém a disse com um certo orgulho no canto da boca, o tipo de orgulho de quem acha que acabou de encerrar um assunto: “Nas igrejas só tem ex-drogado, ex-bandido, ex-mentiroso… tudo ex-alguma coisa.
Não tem ninguém decente?” Ele achou que estava humilhando todo mundo lá dentro.
E eu, naquela época, não tinha argumento nenhum para devolver.
Também não frequentava igreja.
Ri, provavelmente.
Segui minha vida.
Só que a frase não foi embora.
Ficou.
Anos e anos martelando dentro da minha cabeça, voltando em momentos aleatórios, sem que eu entendesse por quê.
Como uma pedra no sapato de alguém que nem estava caminhando.
Eu ia descobrir o motivo muito mais tarde.
Casei-me com Alessandra aos trinta anos.
E, já casado, repeti durante um bom tempo um padrão que eu nem sequer identificava como problema: ela ia à igreja, sozinha, domingo após domingo.
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