Os quatro jalecos
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Professor de neurologia da Faculdade de Medicina da UFRJ e pesquisador titular aposentado da Fiocruz
Eu costumava dizer que conheço três tipos de médicos. Mas a medicina evolui, e com ela a fauna: hoje são quatro.
O primeiro pratica a medicina de butique. Desde a residência, não teve o desconforto de examinar um paciente pobre. Seu consultório tem o silêncio dos lugares caros, e sua clientela paga sem perguntar o preço, que é a forma mais refinada de pagar. Dirige carro importado, frequenta rodas onde todos se conhecem e guarda no celular o número de políticos, artistas e empresários; que, afinal, também adoecem. Muitos são excelentes no que fazem. Ninguém duvida da competência deles; duvida-se apenas do endereço dela.
O segundo vive do SUS ou da universidade pública. Atende no corredor lotado, ensina residentes que ainda acreditam em tudo, pesquisa com uma verba que caberia na conta de um jantar do primeiro. Quase todos são muito competentes e levam uma vida comum, confortável e sem fotografia. Conhecem o Brasil pelo prontuário, que é uma maneira pouco elegante, mas muito precisa, de conhecer um país.
O terceiro faz as duas coisas. De manhã, o hospital público; à tarde, o consultório particular ou de convênio. Atravessa todos os dias a fronteira entre dois países que, por descuido da geografia, ocupam o mesmo território. Muitos são bons médicos, e talvez sejam os únicos que sabem a distância exata entre um lado e outro.
O quarto é uma novidade da espécie: o médico blogueiro . Tem mais seguidores do que pacientes —o que para ele não é um problema, é um plano de negócios. Oferece tratamentos que a ciência ainda não conseguiu compreender, provavelmente porque não há nada a compreender. Publica fotos de viagens, do abdome trabalhado, das grifes que veste com a naturalidade com que outros vestem o jaleco. Nele, a medicina é acessório, como o relógio: serve para combinar com a foto. Chamo isso, sem maldade alguma, de medicina narcisa.
Há, no entanto, algo que os quatro têm em comum, embora só alguns gostem de lembrar. Nenhum deles aprendeu medicina em paciente rico. Aprenderam no ambulatório do hospital universitário, na enfermaria de seis leitos, no corpo de quem não tinha para onde ir e, por isso mesmo, aceitava ser examinado por três estudantes de uma vez. Antes ainda, na sala de dissecação, aprenderam anatomia nos corpos de indigentes, gente que ninguém reclamou em vida e ninguém reclamou depois dela. É uma dívida curiosa: o médico de butique deve suas primeiras lições justamente àqueles que nunca mais voltaria a ver. A gratidão, como se sabe, não consta do currículo.
E eis a explicação para um mistério que poucos se atrevem a decifrar em público: um grupo muito grande de médicos vai votar em Flávio Bolsonaro ( PL ) para presidente. Alguns com convicção, é verdade. Muitos, porém, de modo sub-reptício, quase envergonhado.
O médico de butique vota em quem promete manter o mundo como está, já que o mundo, visto do consultório dele, está ótimo. O médico narciso vota em quem também sabe posar.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em www.folha.uol.com.br — o conteúdo pertence a Folha de S.Paulo.