A "loirona de Flávio Bolsonaro": o que uma influenciadora que não existe revela sobre a política brasileira
Uma jovem loira aparece sorridente ao lado de Flávio Bolsonaro durante manifestações políticas. Chama-se Julia Berlli Cortez e, segundo sua apresentação nas redes sociais, tem 22 anos e estuda Biomedicina. Sua aparência desperta curiosidade, os vídeos circulam rapidamente e centenas de milhares de pessoas começam a acompanhar suas publicações. Há, entretanto, um detalhe: Julia nunca existiu.
Criada por inteligência artificial, a personagem foi inserida em gravações autênticas de atos políticos, chegando a substituir digitalmente o deputado Nikolas Ferreira em algumas cenas. Segundo a Agência Lupa, entre 8 e 20 de outubro de 2026, o perfil de Julia publicou 24 vídeos relacionados a Flávio Bolsonaro, que acumularam 45,2 milhões de visualizações até o meio-dia do último dia.
A história revela uma nova e infame modalidade de exploração comercial da comunicação política: a fabricação de manifestações aparentes de apoio para atrair audiência e encaminhá-la a serviços pagos, sem participação comprovada da campanha do candidato.
A propaganda eleitoral sempre recorreu a imagens capazes de despertar emoções e transmitir aceitação social. Fotografias de candidatos cercados por admiradores, encontros com celebridades e manifestações populares integram há décadas as estratégias de comunicação política. A inteligência artificial introduz uma diferença fundamental: a participação em determinado acontecimento dispensa a presença física.
Nos vídeos de Julia, os atos políticos realmente aconteceram, mas a personagem modifica os registros originais, criando a impressão de que também esteve presente. A combinação de imagens autênticas e elementos fabricados dificulta a identificação da manipulação , especialmente quando os conteúdos circulam sem indicação de sua origem.
Essa alteração interfere na interpretação das imagens. Ver alguém acompanhando um candidato sugere proximidade, identificação ou apoio, embora a relação retratada jamais tenha existido. Entretanto, visualizações, seguidores e comentários representam formas distintas de interação, sem comprovar mudanças nas preferências eleitorais. A importância do episódio reside na criação de uma aparência de participação política, independentemente dos efeitos efetivos sobre o voto.
Em 20 de outubro, o canal reunia 164.432 seguidores, número que não corresponde à quantidade de compradores. O faturamento efetivo permanece desconhecido. Ao examinar a chave Pix utilizada nas cobranças, o Comprova identificou a Sync Tecnologia como titular da conta recebedora. A empresa afirmou atuar exclusivamente como intermediadora de pagamentos, negou envolvimento na criação ou administração da personagem e informou ter iniciado uma análise interna.
A Agência Lupa não encontrou evidências de ligação entre os responsáveis pelos perfis e a campanha de Flávio Bolsonaro. Essa distinção esclarece o mecanismo econômico: o candidato aparece como beneficiário político da mensagem, enquanto terceiros exploram comercialmente a atenção despertada por sua imagem.
A identificação partidária transforma-se em instrumento de captação de consumidores, independentemente dos objetivos eleitorais da liderança retratada.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em www.terra.com.br — o conteúdo pertence a Terra.