Entre a bolsa e as cotas, estudantes pobres enfrentam escolha difícil
Com as cotas e outras políticas que facilitam o acesso às universidades, as bolsas em escolas particulares deixaram de ser a única porta para estudantes de baixa renda chegarem ao ensino superior, e passaram a ser mais uma entre as opções.
O problema é ter que escolher, já que o histórico de bolsista no Ensino Médio pode anular o acesso a outras alternativas como as próprias cotas, o programa Pé-de-Meia e o acesso a cursinhos pré-vestibulares gratuitos.
Doutor em Educação e professor da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul) Fabiano Antônio dos Santos defende a revisão dos critérios para dar fim a essa exclusão.
“Colocar todo mundo no mesmo cesto me parece um equívoco.
É importante revisar porque esses estudantes continuam se enquadrando no mais importante das políticas, que é não ter condições de arcar com o ensino privado e ter uma renda baixa.
Mesmo bolsistas, eles continuam fazendo parte de família com situação socioeconômica vulnerável”, defende.
A política federal de cotas raciais para negros e indígenas é restrita àqueles que cursaram todo o Ensino Médio em escolas públicas e é seguida no Estado pela UFMS, pela UFGD (Universidade Federal da Grande Dourados) e pelo IFMS (Instituto Federal de Mato Grosso do Sul) na seleção para os cursos de graduação.
Da mesma forma, são restritos a matriculados na escola pública programas como o Pé-de-Meia Ensino Médio, que paga bolsa mensal e deposita até R$ 9,2 mil numa poupança aberta para o estudante.
As cotas no vestibular da UEMS (Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul), o Prouni (Programa Universidade para Todos), o Fies (Fundo de Financiamento Estudantil), o cursinho para Enem e pré-vestibular da UFMS, além de auxílios como o MS Supera e o Pé-de-Meia Licenciatura, por outro lado, não diferenciam o passado escolar do beneficiário e garantem um acesso mais amplo.
Diversidade e exclusão - Flávia Kelly Diniz é assistente social no Instituto Luther King, que há mais de 20 anos oferece preparação gratuita para jovens das classes C, D e E terem mais chances em vestibulares e no Enem (Exame Nacional do Ensino Médio), em Campo Grande.
Ele aceita candidatos com matrícula ou histórico escolar em instituição privada, desde que passem na análise socioeconômica.
A assistente social observa que, além de limitar as oportunidades de ingresso no Ensino Superior, a bolsa em escola da rede privada pode implicar dificuldades relacionadas ao meio onde ele vai conviver, já que a maioria dos colegas pertence a outras classes sociais.
“O bolsista troca as garantias que a lei dá lá na frente pela promessa de uma estrutura melhor, mas nem sempre essa troca compensa.
Além da perda de direitos, há uma perda do convívio com a diversidade social, a sociocultural, que é uma riqueza da escola pública”, cita Flávia.
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