‘Nem Tudo é Paz e Amor’ mostra o que ficou da revolução nos filhos da contracultura
O que acontece quando uma geração decide que “ é proibido proibir ” e seus filhos precisam aprender a viver dentro dessa liberdade? É a partir dessa pergunta que o diretor Betão Aguiar constrói Nem Tudo é Paz e Amor , documentário que troca os protagonistas habituais da contracultura brasileira por aqueles que cresceram dentro dela.
Os primogênitos Moreno Veloso , Nara Gil , Sarah Sheeva , Beto Lee e Anelis Assumpção e outros entrevistados revisitam uma infância cercada por música, experimentação, comportamento libertário e personagens que ajudaram a transformar a cultura brasileira.
Mas, em vez de simplesmente celebrar essa geração, Betão investiga o que restou dela em seus filhos: afetos, traumas, referências e também a necessidade de construir caminhos próprios.
Essa escolha de perspectiva é o grande mérito do filme.
Há algo especialmente interessante em ouvir pessoas que foram criadas sob valores que, para seus contemporâneos, pareciam completamente fora da curva.
O que para os pais significava liberdade podia, para uma criança, significar ausência de referências conhecidas.
Sarah Sheeva , filha de Baby do Brasil e Pepeu Gomes , relembra, por exemplo, entre outros assuntos, a convivência com os pais andando nus pela casa.
O relato não surge como condenação, mas como uma tentativa de compreender aquela experiência a partir da maturidade de quem hoje consegue reconhecer a nudez como algo natural e, ao mesmo tempo, perceber que liberdade também pressupõe limites.
São essas pequenas fricções que tornam o documentário mais rico: cada filho encontrou uma maneira particular de organizar o legado recebido.
Sarah se aproximou da religião; Moreno encontra encanto na ciência; outros parecem buscar justamente aquilo que faltava naquele universo de permanente improvisação — como uma simples gaveta para guardar suas roupas, um sofá e uma mesa de jantar para uma simples refeição em família.
Betão , que é filho da escritora e produtora Marília Aguiar e de Paulinho Boca de Cantor , dos Novos Baianos , não esconde a dimensão pessoal do projeto.
Pelo contrário, sua própria experiência parece funcionar como ponto de partida para uma investigação que se amplia para toda uma geração.
A ideia original, concebida ao lado da amiga de adolescência Jasmin Pinho , morta em 2020, ganha ainda uma camada de memória e homenagem.
O resultado, porém, não se limita ao exercício autobiográfico.
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