A IA não vai substituir sua empresa. Vai criar as que nunca existiram
Executivo em tecnologia e consumo em empresas como Neogrid, Linx, TOTVS e Oracle. Hoje é conselheiro, advisor e investidor
Em 2007, a pergunta que dominava as salas de reunião era "como colocar minha empresa na internet?". Em 2015, virou "como migrar para a nuvem?". Em 2026, a mais repetida é "como usar inteligência artificial?". Tenho a suspeita de que ela está tão limitada quanto as anteriores — e pelo mesmo motivo. Quem perguntava como entrar na internet estava otimizando o negócio que já tinha; quem construiu o comércio eletrônico fez uma pergunta diferente. Nenhuma revolução tecnológica ficou marcada pelo que destruiu. Todas ficaram marcadas pelo que tornaram possível construir.
Repare no padrão. A internet não ficou na história por aposentar o fax; ficou por criar o comércio eletrônico. O smartphone não ficou marcado por substituir a câmera digital; ficou por viabilizar Uber, iFood e Instagram. A nuvem não mudou o mundo por baratear servidores; mudou por permitir que Airbnb, Stripe e Nubank nascessem sem milhões em infraestrutura própria. Em nenhum desses casos a inovação veio de uma dor inédita — veio de uma plataforma que tornou economicamente viável resolver dores antigas de um jeito novo. A inteligência artificial segue o mesmo padrão, com uma diferença fundamental: as ondas anteriores baratearam armazenar, processar, distribuir e conectar. A IA barateia a própria inteligência.
E quando o principal insumo de uma economia deixa de ser escasso, não mudam apenas os processos. Mudam os mercados que podem existir.
Toda a teoria organizacional dos últimos cem anos foi construída sobre uma única premissa: inteligência humana é cara, lenta e escassa. Foi essa premissa que justificou departamentos especializados, camadas hierárquicas, fluxos de aprovação, consultorias e centros de serviços compartilhados. Pela primeira vez, ela deixou de ser verdadeira.
Imagine fundar uma empresa em 2026: você contrataria cinquenta analistas? Cinco níveis hierárquicos? Um departamento só para consolidar indicadores e outro só para produzir apresentações? Provavelmente não — então por que empresas maduras continuam fazendo exatamente isso? E o fenômeno não se restringe à tecnologia: imagine abrir uma clínica médica em 2030 — ela teria a mesma recepção, os mesmos auditores de faturamento, a mesma equipe administrativa de hoje? Por isso acredito que o maior impacto da IA não acontecerá dentro dos softwares — acontecerá dentro das empresas.
Se a tese parece teórica, o capital mais sofisticado do mundo já a transformou em cheque. Todos os anos, a Y Combinator publica uma chamada global apontando os problemas que considera as maiores oportunidades para a próxima geração de startups. Vale prestar atenção em quem fala: é a aceleradora por onde passaram Airbnb, Stripe, Coinbase, Dropbox e Reddit — mais de 5.600 empresas financiadas desde 2005, num portfólio que soma acima de US$ 600 bilhões.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em exame.com — o conteúdo pertence a Exame.