Angel Ferreira revive "Sidarta" em montagem íntima no centro de São Paulo
Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler.
Angel Ferreira decidiu desacelerar. Ele se afastou dos trabalhos na televisão, adotou um novo nome artístico e foi morar no interior de Goiás, na Chapada dos Veadeiros . Durante cinco anos, viveu no chassi de um ônibus adaptado, cercado pelo mato, sem rede elétrica e sem água encanada. Esse tempo de silêncio e escuta virou a matéria-prima para adaptar para o teatro o clássico "Sidarta" , de Hermann Hesse .
No palco, a busca espiritual vira uma experiência humana, direta e cheia de frescor. Angel conduz a narrativa com leveza e bom humor, usando uma linguagem descontraída e contemporânea que aproxima o texto do público de hoje. A encenação trata das grandes dúvidas da existência sem solenidade, rindo com o espectador das nossas próprias vaidades e contradições cotidianas.
A trajetória mostra que a descoberta de si mesmo não acontece em linha reta. Sidarta começa rompendo com os privilégios da família para viver como asceta na floresta, jejuando e castigando o corpo. Mais tarde, ele encontra o próprio Buda histórico. Embora admire a clareza daquela filosofia, percebe algo essencial: livros e mestres conseguem transmitir apenas conceitos intelectuais, mas a sabedoria autêntica só nasce daquilo que experimentamos na própria pele.
Com essa certeza, Sidarta mergulha no extremo oposto. Vai para a cidade, descobre a paixão com a cortesã Kamala e enriquece como comerciante. Ao se apresentar para trabalhar sem ter bens materiais, oferece apenas os três hábitos aprendidos no retiro: saber pensar com clareza e manter o foco; saber esperar com paciência a hora certa de agir, sem aflição; e saber jejuar para dominar a ansiedade e as necessidades do corpo diante da escassez.
Anos depois, cansado do peso do dinheiro e das aparências, ele abandona os negócios e vai para a beira de um rio. Ao lado do barqueiro Vasudeva, aprende a ouvir as águas e compreende que a paz nasce ao aceitar a vida inteira, com seus erros, dores e afetos.
A encenação traduz esse caminho através de escolhas simples e diretas. O palco conta apenas com um tapete de estilo oriental no centro, delimitando o espaço da ação, enquanto o desenho de luz criado por João Gioia e Renato Livera alterna sombras de recolhimento com focos quentes nos instantes de revelação. No início da apresentação, Angel veste uma roupa leve, simples. Em um trecho da peça, o ator tira a roupa e fica inteiramente nu pela maior parte das duas horas de sessão, um despojamento natural que revela a vulnerabilidade de alguém desarmado do ego.
Angel transita entre todos os personagens usando apenas a respiração, o olhar e o alinhamento do corpo. Com agilidade, ele dá vida ao amigo Govinda, ao pai austero, aos trejeitos de Kamala, à calma de Buda e à serenidade do velho barqueiro, construindo um encontro intimista que convida a olhar com afeto para as nossas próprias buscas.
"Sidarta" trata de iluminação, renúncia e espiritualidade — temas que facilmente caem na armadilha do dogma.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em www.folha.uol.com.br — o conteúdo pertence a Folha de S.Paulo.