O corpo da mulher só interessa quando está morto
Há um ritual social que se repete a cada novo feminicídio: somente depois que uma mulher é assassinada seu corpo adquire, aos olhos de muita gente, a credibilidade que sua voz jamais recebeu enquanto ela ainda tentava sobreviver.
Depois da morte, vizinhos se lembram das discussões, familiares recuperam mensagens, amigos reconhecem ameaças, autoridades reconstroem os últimos passos e a imprensa procura os sinais que, quase sempre, já estavam ali.
Enquanto ela estava viva, no entanto, aquilo que agora parece evidente podia ser tratado como exagero, conflito de casal, ciúme, descontrole passageiro ou problema privado.
O corpo morto produz uma comoção que a mulher viva raramente consegue provocar, porque o corpo não contradiz, não muda de ideia, não retoma a rotina, não se veste de uma maneira considerada incompatível com a dor e não precisa explicar por que permaneceu tanto tempo naquela relação.
A mulher assassinada finalmente se aproxima da vítima ideal construída pelo imaginário social: silenciosa, irrepreensível e incapaz de incomodar as versões contadas a seu respeito.
A sobrevivente, ao contrário, continua sendo interrogada, observada e colocada sob suspeita.
Todo mundo quer entender por que vivemos uma epidemia de feminicídios, mas poucas pessoas parecem dispostas a reconhecer que essas mortes não começam no dia do crime.
O feminicídio é, quase sempre, a última etapa de uma sequência formada por humilhação, perseguição, controle financeiro, isolamento, ameaças, violência psicológica, agressões e descumprimento de medidas protetivas.
Em 2025, o Brasil registrou 1.571 feminicídios, o maior número da série histórica, além de 4.189 tentativas de feminicídio.
Em 62,5% dos casos, a mulher foi morta dentro de uma residência, enquanto companheiros e ex-companheiros representaram, juntos, 79,8% dos autores identificados.
As mulheres negras correspondiam a 65,1% das vítimas, demonstrando que até mesmo dentro da violência de gênero existem corpos mais desprotegidos e mortes que recebem menos atenção.
Os dados preliminares de 2026 registraram 848 vítimas entre janeiro e julho, uma redução de 3,2% em relação ao mesmo período de 2025, mas isso ainda representa uma média de quatro mulheres mortas por dia.
Uma pequena oscilação estatística não permite comemoração quando centenas de mulheres continuam perdendo a vida dentro de relações que deveriam ser espaços de afeto, e quando o Sul e o Centro-Oeste, por exemplo, apresentaram aumento no número de casos no mesmo período.
Talvez o dado mais revelador não esteja apenas no número de mortes, mas em tudo aquilo que veio antes delas.
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