Seca histórica obriga França a afrouxar regras para produção de queijos tradicionais
A pior seca registrada na França em décadas está obrigando produtores de leite destinado a alguns dos queijos mais famosos do país a rever regras centenárias de produção. Com os pastos ressecados, está cada vez mais difícil cumprir as rígidas normas de produção associadas aos produtos de origem protegida, conhecidos na França pela sigla AOP (Apelação de Origem Protegida).
Os produtores de Abondance poderão reduzir a parcela da alimentação baseada em capim de pastagem. Os de Beaufort terão mais liberdade para utilizar feno e capim que não seja produzido localmente. Já os produtores de Comté poderão adquirir parte do milho verde utilizado de fora de suas propriedades, até o fim de outubro.
“É uma decisão bem-vinda e sensata, diante da situação alarmante provocada pela seca”, afirmou Joel Vindret, presidente da SIFA, associação que reúne produtores de queijo do vale de Abondance, ao sul do Lago de Genebra.
Em 10 de agosto, o crescimento das pastagens permanentes estava cerca de um terço abaixo da média registrada entre 1989 e 2018, segundo o serviço estatístico do Ministério da Agricultura.
“O objetivo continua sendo alimentar os rebanhos nas melhores condições possíveis, apesar da forte redução da disponibilidade de capim e feno. Isso exige medidas excepcionais”, declarou Vindret à RFI .
A vasta variedade de queijos regionais franceses é motivo de orgulho nacional, e as autoridades adotam regras rigorosas para preservar os métodos tradicionais de produção e garantir a autenticidade dos produtos. Para obter o cobiçado selo AOP e utilizar um nome protegido, os produtores precisam seguir exigências detalhadas sobre a área de criação dos animais e sua alimentação.
No caso do Abondance, a produção deve ocorrer exclusivamente nas montanhas da Alta Savoia, onde muitos rebanhos passam o verão em pastagens alpinas.
“A dieta dos animais é baseada principalmente em capim de pastagem. Alimentos fermentados são proibidos, assim como organismos geneticamente modificados. O uso de complementos alimentares, como cereais, é limitado”, explica Vindret.
A seca deste verão, que afetou 95% da França continental em julho, tornou impossível cumprir integralmente essas exigências.
“O regulamento da nossa AOP prevê que os rebanhos sejam alimentados principalmente com capim fresco no verão e com feno no inverno. Além disso, esse capim deve vir da área de denominação Abondance”, explica.
“Se seguíssemos essas regras neste verão e também no próximo inverno, não conseguiríamos alimentar nossos rebanhos adequadamente.”
O selo AOP garante ao consumidor normas de qualidade e de respeito aos métodos tradicionais de produção, e uma flexibilização das regras poderia levantar dúvidas sobre sua credibilidade. Vindret, no entanto, afirma não estar preocupado.
“Essas medidas só devem ser adotadas em circunstâncias excepcionais. O selo AOP continua oferecendo muitas outras garantias, como a preservação dos saberes tradicionais e das raças locais de gado”, argumenta.
As medidas fazem parte de uma flexibilização mais ampla das regras de origem protegida diante dos efeitos da seca.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em www.rfi.fr — o conteúdo pertence a RFI Brasil.