Deus no Código
Quando uma empresa de inteligência artificial procura religiosos para discutir o comportamento de suas máquinas, alguma coisa importante está acontecendo.
Os engenheiros descobriram, talvez mais tarde do que deveriam, que a capacidade de responder a milhões de perguntas não resolve uma questão anterior: quais experiências humanas merecem orientar essas respostas? Em outubro de 2026, a Associated Press noticiou que a Anthropic, criadora do Claude, ouvira representantes de mais de quinze grupos religiosos e interculturais.
O fato é jornalisticamente relevante pelo que revela sobre o futuro de uma tecnologia já presente nas escolas, nos hospitais, nos escritórios e nas conversas privadas.
A iniciativa me interessa, mas deixa uma impressão de começo de conversa.
Consultar líderes espirituais para reduzir comportamentos prejudiciais é uma providência sensata.
A ambição deveria ir muito além.
Que sentido existe em treinar sistemas com bibliotecas inteiras de filosofia, história e literatura e reservar às escrituras religiosas o papel de fornecer algumas regras de boa conduta? Seus textos guardam dramas familiares, experiências de exílio, dilemas de governantes, perguntas sobre a morte, meditações sobre o sofrimento e concepções de justiça elaboradas ao longo de muitos séculos.
Voltei, por isso, a um ensaio que publiquei em 1994, no livro Nova Ordem Mundial, Novos Paradigmas.
Chamava-se Os Livros Sagrados da Humanidade.
Eu me detinha nas palavras que atravessaram desertos, montanhas e oceanos, transmitidas de memória, copiadas à mão, traduzidas e discutidas por gerações.
Trinta e dois anos depois, aquelas páginas ganharam um interlocutor imprevisto: a máquina.
Gostaria que ela conhecesse a beleza e as dificuldades dessas tradições com a mesma atenção que dedicamos aos tratados científicos.
A história não cabe num laboratório Arnold Toynbee, historiador britânico que viveu de 1889 a 1975, dedicou os doze volumes de Um Estudo de História, publicados entre 1934 e 1961, ao nascimento, às crises e às transformações das civilizações.
Em sua interpretação, as religiões universais possuíam uma capacidade singular de atravessar o declínio de sociedades e conservar horizontes de sentido.
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