A mudança é irritante, mas a certeza é absurda
Voltaire escreveu essa frase como quem acende uma vela num quarto cheio de espelhos.
A luz não serve para mostrar apenas o rosto dos outros; serve, sobretudo, para revelar as sombras que insistimos em chamar de verdades.
Mudar irrita porque desmonta a mobília da alma.
O ser humano gosta de reconhecer o caminho mesmo no escuro.
Há conforto nas repetições: as mesmas opiniões, os mesmos hábitos, os mesmos julgamentos servidos no café da manhã como se fossem pão quente.
A mudança chega sem pedir licença.
Troca os móveis de lugar, abre janelas que estavam fechadas havia anos, faz corrente de ar onde antes havia apenas poeira acomodada.
É natural que incomode.
Crescer sempre arranha um pouco a pele antiga.
O problema não está no incômodo da mudança.
O problema começa quando transformamos esse incômodo em trincheira e passamos a defender nossas certezas como soldados cansados demais para voltar para casa.
A certeza absoluta é uma espécie de arrogância silenciosa.
Ela não grita necessariamente.
Muitas vezes fala baixo, com voz educada, mas carrega dentro de si uma convicção perigosa: a de que já compreendeu o mundo por inteiro.
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