Vida Imobiliária: A casa brasileira foi feita para uma família que está desaparecendo
Estamos tendo menos filhos. Muito menos. Em 2000, a taxa de fecundidade brasileira era de 2,32 filhos por mulher. Em 2023, chegou a 1,57. (Imagem gerada por IA/Exame)
Tenho dois filhos e, às vezes, tenho a impressão de que eles moram em casas completamente diferentes, embora o endereço seja o mesmo. Minha filha tem cinco anos. Para ela, uma sala nunca é apenas uma sala. Pode ser pista de dança, escola, restaurante, castelo ou acampamento, dependendo do que tiver acontecido nos cinco minutos anteriores. O sofá é menos um móvel e mais uma estrutura para acomodar bonecas e vestidos de princesas. E qualquer espaço livre no chão parece existir para ser ocupado.
Meu filho tem treze. A lógica já é outra. O quarto começa a ganhar uma importância que antes não tinha. A porta eventualmente se fecha. Os amigos chegam, a autonomia aumenta e aquela criança que antes precisava de espaço para brincar começa a precisar de espaço para existir.
É curioso como os filhos crescem e, sem que percebamos, redesenham a casa. Primeiro queremos enxergá-los o tempo todo. Depois queremos que tenham onde brincar. Mais tarde, queremos que possam receber os amigos. Em algum momento, começamos a pensar na privacidade deles. E, muitos anos depois, provavelmente olharemos para alguns desses mesmos cômodos e nos perguntaremos o que fazer com tanto espaço.
Talvez poucas coisas alterem tanto nossa relação com a moradia quanto ter filhos. E é justamente por isso que uma das maiores transformações demográficas do Brasil terá consequências profundas para o mercado imobiliário.
Estamos tendo menos filhos. Muito menos. Em 2000, a taxa de fecundidade brasileira era de 2,32 filhos por mulher. Em 2023, chegou a 1,57. O número já está bastante abaixo dos aproximadamente 2,1 necessários para a reposição populacional.
Mas existe outra mudança, talvez ainda mais interessante. Não estamos apenas tendo famílias menores. Estamos tendo mais famílias que decidiram não ter filhos. Entre 2000 e 2022, a participação dos casais sem filhos no Brasil dobrou, passando de 12% para 24% das famílias. Isso pode parecer apenas uma curiosidade demográfica, mas não é.
Durante décadas, boa parte das cidades e do mercado imobiliário brasileiro foi desenhada em torno de uma família de classe média relativamente previsível. Pai, mãe, dois ou três filhos. Era essa família imaginária que ajudava a definir o tamanho dos apartamentos, a quantidade de quartos, as áreas de lazer, as garagens e até o discurso publicitário dos empreendimentos.
O famoso apartamento de três quartos fazia sentido dentro dessa lógica. Um quarto para o casal. Dois para os filhos. Sala para a família. Uma ou duas vagas. Playground no térreo. O imóvel acompanhava uma espécie de roteiro esperado da vida adulta: se casar, ter filhos, comprar uma casa maior. E agora esse roteiro está sendo reescrito. E quando muda a família, inevitavelmente muda a planta.
Uma família com um filho tem necessidades diferentes de uma família com três. Um casal que não pretende ter filhos pode privilegiar escritório, varanda ou uma cozinha maior em vez de dormitórios adicionais.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em exame.com — o conteúdo pertence a Exame.