Consumo crônico de goma xantana pode causar inflamação intestinal
Aditivo alimentar é amplamente presente em produtos sem glúten e ultraprocessados
A goma xantana é um aditivo amplamente utilizado na indústria de alimentos para estabilizar receitas e ajustar a consistência de sorvetes, iogurtes, bolos, molhos e massas sem glúten, sendo também essencial no preparo de bebidas para quem tem dificuldade de engolir – condição conhecida como disfagia. No entanto, um novo estudo liderado por pesquisadores brasileiros indica que o consumo contínuo dessa substância pode promover um estado inflamatório no intestino.
Publicado na revista PLOS One em abril, o trabalho utilizou ratos adultos para investigar os impactos desse aditivo no organismo. Os resultados validam, de forma experimental, preocupações clínicas antigas: em 2011, a agência norte-americana FDA ( U.S. Food and Drug Administration ) chegou a emitir um alerta contra o uso de espessantes à base de goma xantana em fórmulas para bebês prematuros por suspeita de que a substância estaria associada ao desenvolvimento de enterocolite necrosante – inflamação grave que leva à morte das células intestinais. Na ocasião, ao menos 7 mortes de prematuros foram associadas ao uso do espessante.
Atualmente, nos Estados Unidos, o uso da goma xantana segue uma regulação mais cautelosa que a brasileira, com cálculo de concentração por grama de produto para pessoas maiores de 12 anos e restrições ao uso em fórmulas e alimentos para bebês. Para prematuros, a proibição é total. A despeito de toda a ação regulatória após o caso envolvendo recém-nascidos, o conhecimento científico sobre o efeito do aditivo no intestino humano não avançou.
“Até agora, a relação entre a goma xantana e a doença nos bebês era apenas uma hipótese clínica ou uma observação empírica. O estudo realizado em ratos comprovou a causalidade, ou seja, que esse aditivo alimentar de fato causa a inflamação” , diz à Agência Fapesp Claudia Oller , professora da Unifesp (Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo) e coordenadora da pesquisa, apoiada pela Fapesp.
Para compreender os efeitos da goma xantana no trato gastrointestinal, os pesquisadores conduziram testes ao longo de 10 semanas. Ratos adultos foram divididos em 4 grupos. O primeiro não consumiu goma xantana (controle). O segundo recebeu uma dose baixa do espessante, mimetizando o consumo de uma pessoa que faz uma dieta sem glúten e consome produtos industrializados que contêm o aditivo. O terceiro grupo recebeu uma dose média da goma (metade da dose máxima), imitando alguém com dificuldade leve de engolir, que usa o espessante apenas em algumas refeições. E o 4º grupo recebeu a dose máxima, simulando a de um paciente com dificuldade de moderada a severa para engolir, que precisa adicionar o espessante em absolutamente todos os líquidos e alimentos que consome.
Embora a goma xantana não tenha afetado o metabolismo geral dos animais, os impactos locais no intestino foram significativos. A adição de goma xantana, em todas as doses testadas, promoveu um estado inflamatório de grau moderado, caracterizado por maior presença de células de defesa (linfócitos) infiltradas na parede intestinal.
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