Fé, sangue e liberdade: a rebelião de Nat Turner contra escravidão
Há 195 anos, em 21 de agosto de 1831, eclodia na Virgínia a Rebelião de Nat Turner, um dos maiores e mais violentos levantes de escravizados da história dos Estados Unidos.
A revolta foi comandada por Nat Turner, um homem negro profundamente religioso que acreditava ter recebido a missão divina de libertar o seu povo. Ao longo de três dias, um grupo de 70 rebeldes atacou várias fazendas na Virgínia, matando os escravizadores e libertando dezenas de cativos.
A rebelião foi duramente reprimida por milícias locais e pela guarda estadual. Seguiu-se uma violenta retaliação contra a população negra que resultou no assassinato de até 200 pessoas. O episódio também motivou a aprovação de leis mais severas, restringindo a educação, a circulação e a liberdade de culto de pessoas escravizadas.
Primeira colônia inglesa permanente na América do Norte, o estado da Virgínia foi também o berço do sistema escravagista que perdurou nos Estados Unidos por dois séculos e meio.
Inicialmente, o status legal dos escravizados era ambíguo, confundindo-se em parte com o sistema de servidão imposto aos imigrantes europeus. Ao longo do século 17, no entanto, o governo da Virgínia criou o arcabouço jurídico que instituiu a escravidão vitalícia e hereditária, transformando os africanos e seus descendentes em uma categoria racial permanentemente subordinada, equiparados a propriedades.
O regime escravagista da Virgínia rapidamente se expandiu para as outras colônias norte-americanas. As grandes propriedades agrícolas se tornaram profundamente dependentes da mão de obra escrava. Na Virgínia, os escravizados trabalhavam sobretudo no cultivo do tabaco e realizavam todas as tarefas necessárias à manutenção das “plantations” e à construção da infraestrutura.
Firmada em 1776, a Declaração de Independência dos Estados Unidos assegurava que “todos os homens são criados iguais”, mas a escravidão permaneceria em vigor por quase um século ainda. À época, a Virgínia havia se consolidado como o principal centro do sistema escravagista norte-americano, concentrando mais de 290 mil cativos — isto é, 42% de toda a população escravizada do país.
A rotina dos cativos na Virgínia era marcada pela exploração inclemente e pela violência sistemática, resultando em taxas de letalidade extremamente elevadas. Reagindo aos abusos, a população cativa se engajou em diversas formas de resistência, incluindo fugas, sabotagens e, ocasionalmente, insurreições armadas contra os escravizadores. É o caso, por exemplo, da Rebelião de Gabriel Prosser, um levante de escravizados que eclodiu em Richmond no ano de 1800 e que foi brutalmente esmagado pelas autoridades.
A Virgínia serviria de palco a outra grande rebelião de cativos na primeira metade do século 19. Seu líder foi Nat Turner, um afro-americano escravizado nascido em 2 de outubro de 1800, em uma fazenda no condado de Southampton. O condado integrava uma região de “plantations” onde a população negra superava numericamente a dos brancos.
Diferentemente da grande maioria dos escravizados, Turner aprendeu a ler e a escrever quando ainda era criança. A tradição local costumava atribuir sua alfabetização ao filho do proprietário da fazenda.
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