Brasil 2026-2030: a luta está só no começo
Na tragédia de Sófocles, Édipo tenta escapar da profecia do Oráculo de Delfos: mataria o pai e se casaria com a mãe.
Ao fugir de Corinto, porém, aproxima-se justamente do destino que pretendia evitar: no caminho para Tebas, assassina Laio e, mais tarde, desposa Jocasta.
A tragédia não está apenas no cumprimento da profecia, mas no fato de que a tentativa de escapar dela se torna o próprio caminho de sua realização.
A história brasileira também não se repete como cópia, mas como insistência trágica.
Como nas tragédias gregas, muitas vezes mergulhamos no destino quando acreditamos estar fugindo dele: a cada crise, o país tenta contornar seus fantasmas autoritários sem enfrentá-los, e acaba reencontrando-os sob novas formas.
A democracia brasileira carrega algo dessa estrutura trágica: retorna por sintomas, palavras de ordem, personagens deslocados e fantasias de salvação que atravessam décadas, mesmo quando acreditamos ter deixado para trás as formas mais explícitas do autoritarismo.
O Brasil que se prepara para a disputa de 2026 não é o mesmo de 1954, 1961 ou 1964; tampouco é possível dizer que nada mudou desde a Constituição de 1988.
Mas há uma linha subterrânea que atravessa esses momentos: a dificuldade das elites políticas, econômicas, militares e midiáticas de aceitar que a soberania popular possa produzir governos comprometidos, ainda que parcialmente, com a inclusão social, a ampliação de direitos e a presença organizada dos pobres na cena pública.
Por isso, o desafio do campo democrático e popular, no ciclo 2026-2030, não será apenas vencer uma eleição.
Será disputar uma nova legalidade: viva, enraizada na Constituição de 1988, nos direitos sociais, na soberania do voto, na memória das lutas populares e na capacidade de impedir que o reacionarismo transforme a democracia em casca vazia.
A extrema direita aprendeu a operar por dentro das instituições, a usar o Parlamento como trincheira contra o povo, as redes como fábrica de ressentimento e o discurso anticorrupção como velha senha para a exceção.
A recorrência autoritária não é acidente A democracia brasileira sempre conviveu com uma espécie de tutela permanente.
Quando o voto popular produz resultados toleráveis às classes dominantes, ele é celebrado como maturidade institucional.
Quando produz deslocamentos sociais, políticas redistributivas ou protagonismo popular, passa a ser tratado como risco, desordem, corrupção, comunismo, populismo ou ameaça à família.
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