Aliado de Flávio barrar reajuste do Bolsa Família é tudo o que Lula quer
O deputado federal Zé Trovão (PL-SC), aliado de primeira hora do senador Flávio Bolsonaro, decidiu acionar o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para barrar o reajuste de 15,04% no Bolsa Família, anunciado pelo presidente Lula a 17 dias do primeiro turno. A ação, que acusa o petista de abuso de poder político, caiu no colo do ministro André Mendonça, indicado ao Supremo por Jair Bolsonaro. À primeira vista, a oposição parece tentar encurralar o governo. Na prática, pode ajudar o petista.
Se o TSE não proibir o reajuste, que eleva o repasse mínimo de R$ 600 para R$ 691, o impacto prático dessa medida na reta final do primeiro turno será muito baixo. O novo valor só começa a ser pago no dia 19 de outubro, menos de uma semana antes do segundo turno. Além de o dinheiro não circular a tempo de gerar a clássica sensação imediata de alívio no comércio local (aquela que costuma render votos na urna), a medida atinge um público que já vota majoritariamente no PT.
O ganho de Lula com a liberação dos recursos, portanto, pode ser marginal e restrito a um eventual segundo escrutínio.
Se o reajuste for suspenso, a máquina de campanha petista terá em mãos um roteiro para os dias decisivos: reforçar o mote de que o "bolsonarismo tem ódio de pobre". E os personagens dessa narrativa foram escalados pela própria oposição. De um lado, um aliado ruidoso da família Bolsonaro (Zé Trovão) trabalhando para bloquear os recursos aos mais vulneráveis. De outro, um ministro visto como aliado de Flávio (André Mendonça) decidindo o destino do benefício.
Claro que o bolsonarismo tentará capitalizar em cima da manobra governista. A estratégia da direita será usar a ação no TSE para vender a uma parte das classes média e alta a ideia de que Lula é um populista tentando comprar votos de pobres às vésperas da eleição. Para isso, vão explorar o fato de que o reajuste sequer constava no Projeto de Lei Orçamentária enviado em agosto ao Congresso Nacional, e lembrar que o benefício ficou congelado em R$ 600 durante quase todo o mandato. Sim, eles têm razão que o timing é eleitoreiro.
E vão resgatar o velho discurso preconceituoso de que o Bolsa Família reduz a quantidade de mão de obra disponível. Afinal, com o benefícios as pessoas não aceitam trabalhar por valores muito baixos.
O problema central dessa linha de argumentação bolsonarista é a memória recente. A indignação com o uso eleitoral da máquina pública esbarra na hipocrisia de quem fez exatamente a mesma coisa (e de forma ainda mais agressiva) em 2022. Na tentativa de se reeleger, o próprio Jair Bolsonaro atropelou tudo para inflar o antigo Auxílio Brasil em agosto, com um aumento proporcionalmente ainda maior. Foi de R$ 400 para R$ 600, mas de forma temporária.
Contudo, como explica Felipe Salto, meu colega de UOL, o reajuste de 15,04% recompõe a inflação entre março de 2023 (quando houve o último reajuste) e agosto de 2026. Segundo ele, respeita-se a Lei de Responsabilidade Fiscal e a Lei Eleitoral. "Não se trata de conceder benefício novo, mas de neutralizar a perda nominal.
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