Calor torna colapso de geleira mais provável no Nepal
A enchente no Nepal, que deixou ao menos 680 mortos, começou provavelmente com uma avalanche de rocha e gelo no Tibete, de acordo com cientistas ouvidos pelo jornal inglês The Independent .
Parte da encosta do monte Langtang Lirung, na fronteira entre o Nepal e o Tibete, desabou e arrastou um fragmento da geleira. A massa de gelo, rochas e lama atingiu o rio Lhende Khola, ganhando volume, e avançou por distritos nepaleses.
O fluxo provocou enchentes repentinas. Jeffrey Kargel, cientista do Planetary Science Institute, calcula que ele percorreu os primeiros 22 km a uma velocidade média de 193 km/h. Professor de geomorfologia aplicada, Stuart Dunning avalia que a avalanche começou a cerca de 4.800 metros de altitude e avançou por mais de 1.200 metros.
Mais de 90 mil pessoas foram diretamente afetadas e precisam de ajuda urgente, afirma a Cruz Vermelha. Rios dos vales atingidos subiram até nove metros em meia hora.
Glaciares do Himalaia estão mais finos, deixando encostas potencialmente instáveis. O degelo do permafrost, camada do subsolo permanentemente congelada que ajuda a manter as rochas unidas, também pode contribuir para a instabilidade.
Cientistas ainda não vinculam diretamente o desabamento às mudanças climáticas. Ella Gilbert, do British Antarctic Survey, no entanto, diz que não se sabe exatamente o que ocorreu, mas que os fatores envolvidos são agravados pelo aquecimento global. Stuart Dunning ressalva que eventos extremos são raros e que não há dados históricos suficientes para afirmar que desastres desse tipo se tornarão mais frequentes.
A perda de gelo nas geleiras do Himalaia dobrou desde 2000, diz Gilbert. "Sabemos que o aquecimento do clima desestabiliza geleiras na região", afirma a cientista.
Áreas acima de 4.000 metros na bacia de Langtang aqueceram cerca de cinco vezes mais do que a média global desde os anos 1960. Bethan Davies, da Universidade de Newcastle, destaca que a perda de neve e gelo expõe rochas escuras, que absorvem mais calor.
Monitorar e prever avalanches desse tipo é mais difícil do que acompanhar o risco de rompimento de glaciais. Há milhares de encostas na região, e os sinais de alerta podem ser escassos; no Nepal, um medidor identificou a rápida elevação da água e alertas foram enviados.
Moradores mais próximos da origem da enchente tiveram poucos minutos para escapar. Hannah Cloke, da Universidade de Reading, afirma que alertas emitidos horas antes para áreas mais distantes ajudaram a salvar centenas de pessoas.
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