No Canadá, a maioria apoia a suspensão da negociação comercial com os Estados Unidos
É jornalista e vive em Nova York desde 1985. Foi correspondente da TV Globo, da TV Cultura e do canal GNT, além de colunista dos jornais O Estado de S. Paulo e O Globo
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Imagine comprar uma televisão em São Paulo e descobrir que o manual de instalação é em inglês. Felizmente, a lei brasileira impede que isso aconteça. Mas se dependesse do time de negociadores americanos reunidos com os canadenses em Washington, na semana passada, os mais de 9 milhões de habitantes da província francófona de Quebec não teriam mais a garantia de poder instalar eletrodomésticos seguindo instruções no seu idioma nativo.
A Constituição do Canadá determina que o inglês e o francês são os idiomas oficiais do país. Essa proteção é também uma defesa contra o movimento separatista da província cujo apoio, no momento, é o mais baixo das últimas décadas.
Mas o que é um impertinente aspecto de soberania nacional para assessores de um presidente que se diverte publicando mapas com o Canadá identificado como o 51º estado dos EUA ? O ataque à proteção do francês em meios que incluem plataformas de streaming é só um detalhe do menu de exigências feito na reta final, embora, dias antes, Donald Trump anunciasse um "ACORDO!" iminente na rede social.
O colapso das negociações , decidido pelo primeiro-ministro Mark Carney pouco antes do prazo de meia-noite na sexta-feira (21), pegou Washington de surpresa. Testemunhos confirmam que as negociações para evitar um novo tarifaço entre os dois países descarrilaram de vez com a intervenção do abrasivo secretário de Comércio americano, Howard Lutnick, que endureceu exigências especiais sobre aço e alumínio, sob pressão de lobistas de seu país.
Mas o sangue-frio de Mark Carney pode ter surpreendido ainda mais. O discreto ex-presidente do Banco Central britânico deslocou as manchetes das seções de economia e negócios para o noticiário político, usando uma linguagem firme e direta que lembra seu importante discurso de janeiro em Davos.
O premiê revelou que os negociadores americanos se recusaram a dar garantias de que um acordo comercial assinado agora seria honrado se o chefe acordasse indisposto mais adiante –alô, Brasília.
Exigiram mais: se os EUA decidissem impor tarifas mais altas contra um terceiro país, digamos, na importação de aço, o Canadá seria obrigado a impor a mesma tarifa contra o dito país –ALÔ, BRASÍLIA.
Mark Carney foi eleito principalmente por causa do primeiro tarifaço trumpista, quando seu rival conservador era, até então, o favorito. A primeira pesquisa nacional feita após o colapso das negociações comerciais revelou que 76% dos canadenses apoiam a decisão do primeiro-ministro.
Carney sabe que sua popularidade tende a cair quando o tarifaço começar a doer num país que já enfrenta 15 anos de baixo crescimento e pode estar flertando com uma recessão. Um economista estimou que 90 mil empregos podem ser perdidos se a guerra comercial persistir.
Mas o tecnocrata está dando uma aula de astúcia política ao comunicar aos eleitores que estão em jogo não só preços e empregos, mas a soberania e a cultura nacionais.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em noticias.uol.com.br — o conteúdo pertence a UOL Notícias.