“Não podemos tolerar cracolândias digitais”, diz Messias sobre Discord
União entrou com ação de R$ 500 milhões e listou histórico de crimes que utilizaram da plataforma
A União, representada pela AGU (Advocacia-Geral da União), ingressou com ação civil pública na Justiça Federal e requereu medida cautelar para que a empresa se adeque à legislação brasileira. O governo também pede condenação por dano moral coletivo no valor de R$ 500 milhões.
“Nós não podemos tolerar que verdadeiras cracolândias digitais sejam criadas no ambiente virtual brasileiro” , disse Messias. “Esta ação representa que a tolerância do Estado brasileiro é zero para esse tipo de prática.”
Messias destacou ainda que o Estado brasileiro assumiu o compromisso de encerrar o que chamou de “safáris digitais, em que animais são expostos a toda prática de violência” . Ele enfatizou que as ações do governo foram tomadas com proporcionalidade e após extenso esforço de construção de consenso, afastando críticas de excesso ou voluntarismo.
O advogado-geral também citou dados mais amplos sobre criminalidade digital: nos últimos 3 anos, houve aumento de 400% nos crimes migrados do ambiente físico para o virtual, abrangendo não apenas casos envolvendo crianças e adolescentes, mas também estelionatos e golpes contra aposentados, idosos e consumidores em geral.
Para enfrentar o cenário, Messias destacou o ECA Digital e uma lei recém-sancionada pelo presidente da República, que institui mecanismos como a “ronda virtual” , descrita por ele como uma versão digital da patrulha de rua.
“Aquilo que nós conhecíamos de Cosme e Damião nas esquinas das ruas, hoje vão estar nas plataformas digitais” , disse.
O advogado-geral ressaltou que empresas estrangeiras são bem-vindas ao mercado digital brasileiro, desde que respeitem a legislação nacional.
Messias listou outros episódios ligados ao Discord que motivaram a atuação do governo. Segundo ele, a plataforma foi usada para disseminar os atos preparatórios do ataque escolar em Cambé, no Paraná, em 2023. Também foi cenário da chamada Operação Dark Room, que resultou em automutilação forçada e disseminação de conteúdo de pedofilia.
Em outro caso citado por ele, um jovem ateou fogo em um morador de rua e transmitiu o ato ao vivo pela plataforma; apesar de notificada, a empresa se recusou a derrubar a transmissão. Casos de apreensão de adolescentes por aliciamento e extorsão via Discord também foram registrados em 2025 e 2026.
A plataforma SaferNet Brasil processou 2.059 URLs com denúncias relacionadas exclusivamente ao Discord entre 2017 e 2025, o que representa crescimento de 120% em 3 anos, conforme dados do Núcleo de Observação e Análise Digital da Polícia Civil de São Paulo.
O caso ganhou destaque depois da morte de uma menina de 13 anos em Naviraí (MS), em 22 de julho. Segundo a Polícia Civil e o Ministério da Justiça e Segurança Pública, ela foi induzida a cometer suicídio durante uma transmissão na plataforma.
O próprio Discord confirmou ao Ministério da Justiça uma falha no sistema de segurança durante o episódio. A transmissão começou às 2h20, mas a 1ª comunicação sobre risco iminente de morte ou lesão corporal grave só foi emitida às 3h50.
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