Quando descansar vira motivo de culpa, a cobrança passou do limite
A agenda abriu uma brecha, mas a cabeça não.
Há uma hora disponível para descansar, ouvir música ou simplesmente ficar no sofá.
Em vez de alívio, porém, aparece uma lista mental: o trabalho pendente, a casa por arrumar, a mensagem sem resposta.
O corpo para.
A cobrança continua.
Essa dificuldade de aproveitar uma pausa ajuda a revelar uma relação desgastante com a produtividade: a sensação de que o descanso precisa ser merecido e só pode chegar depois que tudo estiver resolvido.
Como sempre existe algo a fazer, a autorização para parar nunca vem.
Às vésperas do Dia Mundial da Saúde Mental, celebrado em 10 de outubro, o psicólogo Thiago Ayala chama a atenção para esse comportamento.
Vinculado à Unidade Multiprofissional do Hospital Universitário Maria Aparecida Pedrossian, da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (Humap-UFMS), integrante da HU Brasil, ele explica que algumas pessoas aprenderam a associar descanso à falta de esforço.
“Ela para fisicamente, mas mentalmente continua se cobrando”, afirma.
Segundo Ayala, essa necessidade constante de produzir pode ter diferentes origens: uma educação marcada por exigências, ambientes de trabalho que cobram demais, medo de fracassar ou experiências em que foi necessário provar o próprio valor.
A cultura que recompensa desempenho o tempo todo também contribui para transformar qualquer intervalo em motivo de desconforto.
O problema se aprofunda quando a pessoa passa a medir quem é pelo que consegue entregar.
Um dia de menor rendimento deixa de ser apenas um dia difícil e vira uma avaliação negativa de si mesma.
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