Como sucesso de vacinas reduz percepção do risco de doenças
Como sucesso de vacinas reduz percepção do risco de doenças - Quanto mais uma campanha de imunização chega às pessoas, menos visível se torna o risco que ela evitou. Além disso, movimentos políticos também podem ter influência sobre a disposição da população de se vacinar.Uma pessoa que nunca viu alguém com sarampo pode ter dificuldade para entender por que precisa ser vacinada contra a doença. Não porque a vacina tenha deixado de funcionar, mas justamente pelo contrário: ela funcionou tão bem que o sarampo desapareceu do dia a dia da grande maioria da população. O mesmo aconteceu com enfermidades como a poliomielite e a difteria. Males que durante décadas foram uma ameaça concreta à saúde se tornaram distante, quase como algo do passado.
Essa é justamente uma das contradições que o sucesso da vacinação traz. Quanto mais uma campanha de imunização consegue atingir as pessoas e controlar uma doença, menos visível se torna o risco que ela evitou. Sem familiares que tenham adoecido e sem histórias próximas de sequelas e mortes, as pessoas podem ter dificuldade para dimensionar e entender a gravidade dessas infecções. E, quando a ameaça parece distante, a percepção de urgência e de necessidade de se proteger também pode diminuir.
"A própria Organização Mundial da Saúde (OMS) considera que a percepção de risco é um dos fatores fundamentais para você ter a necessidade de se vacinar. Se você não vê mais as doenças, a sua percepção de risco é muito baixa”, diz Rosana Ritchmann, infectologista e membro do comitê de imunizações da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI).
Essa situação ajuda a explicar um dos desafios enfrentados atualmente pelos programas de imunização. Afinal, como manter a confiança e a adesão às vacinas contra doenças que deixaram de fazer parte do cotidiano e fazer com que essas doenças não voltem?
O sarampo é um exemplo. Durante boa parte do século 20, a doença era presente e pais viam filhos adoecerem. Avós carregavam sequelas. A comunidade conhecia diversas famílias afetadas. A vacinação era vista não apenas como uma recomendação médica, mas como uma barreira concreta contra a doença que estava presente no dia a dia.
Hoje essa experiência próxima com a doença praticamente desapareceu. E esse é justamente o resultado que as vacinas pretendiam alcançar.
Dessa maneira, o desafio das políticas de imunização mudou. Como convencer uma criança, um adolescente ou mesmo um adulto de que uma doença é perigosa quando ele nunca conheceu alguém que tenha sofrido com ela? Como combater a desinformação sem transformar a vacinação em uma guerra política? E como manter a confiança em uma ferramenta cuja maior prova de eficácia é justamente a ausência da doença?
Essas são algumas questões que vêm desafiando o sistema de saúde do país. E a prova disso estão nos números.
Depois de décadas de vacinação, o Brasil recebeu, em 2016, da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) a certificação de eliminação do sarampo. Naquele ano e em 2017, não houve casos confirmados no país.
A conquista, porém, não significava que o vírus havia desaparecido.
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