Fidel Castro aos 100 anos: o homem que se negou a erguer sua própria estátua
Mais do que os efeitos do bloqueio dos Estados Unidos contra Cuba, não há uma única rua – nem mesmo um pequeno beco – em todo o arquipélago cubano que ostente o nome “Fidel Castro”. Isso, embora possa não parecer, era um desejo expresso do próprio líder revolucionário, decretado pela Lei 123 de 27 de dezembro de 2016, intitulada “Sobre o Uso do Nome e da Figura do Comandante-em-Chefe Fidel Castro Ruz”, um projeto legislativo aprovado pela Assembleia Nacional do Poder Popular da ilha que proibia o uso de seu nome em instituições públicas ou a construção de monumentos em sua memória.
Naquela época, eu conversava com Ofelia Medina, uma aposentada cubana que hoje tem 88 anos e que, na ocasião, questionou, um tanto irritada: “por que Che Guevara tem uma estátua em Santa Clara – Camilo também tem uma – e Fidel não?”.
A conversa com Medina me fez recordar de outro momento. Alguns anos após a morte do histórico comandante da Revolução Cubana, eu estava com alguns colegas na casa de Katiuska Blanco, jornalista e ensaísta cubana, e sem dúvida uma das pessoas que mais entrevistou Fidel e que escreveu diversos livros sobre sua vida. Ela relatou um dos momentos mais íntimos do líder antes de sua morte. Blanco disse que “tiveram que convencê-lo a ter um lugar onde o povo pudesse lhe prestar homenagem”. Ele queria algo diferente: ser cremado e ter suas cinzas espalhadas na Serra Maestra, um lugar que simboliza a luta armada que Fidel iniciou em 1953 para derrubar a ditadura imposta por Fulgencio Batista (1952-1958).
Nos últimos anos de sua vida, ele concordou que, após sua morte, seus restos mortais seriam colocados no Cemitério de Santa Ifigenia, em Santiago de Cuba, sobre uma lápide simples com apenas seu nome. E por que tudo isso?
Fidel queria evitar que o projeto revolucionário em Cuba fosse reduzido a uma figura personalista. Nos últimos anos de sua vida, ele insistiu que os revolucionários modernos precisam travar “a batalha das ideias”. Estátuas são derrubadas.
Ao longo do século 20, e Fidel Castro é claramente um de seus maiores símbolos, testemunhamos genocídios, ditaduras, duas guerras mundiais e até mesmo uma revolução socialista na Europa que nasceu e morreu no mesmo século. Daqueles anos revolucionários, a obsessão faraônica de alguns líderes dos chamados socialismos reais em se engrandecerem, cativados pelo culto à personalidade, permanece gravada na memória mundial.
O realismo socialista foi uma expressão artística florescente no cinema, literatura e artes visuais, destacando a imagem robusta da classe trabalhadora, do campesinato e dos intelectuais. Porém, sua beleza era por vezes ofuscada pela representação frequentemente grosseira usada para projetar a grandeza de seus líderes. Daí as enormes estátuas de Stalin, Lenin, as imagens cor de cobre dos Kims na Coreia do Norte e muitas outras. No caso de Fidel, ocorreu o oposto. Ele próprio solicitou a proibição da construção de estátuas em sua homenagem.
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