Escritor dá voz a seu animal de estimação no livro “O Velho e o Cão”
O escritor Fernando Machado lança um novo trabalho, desta vez tomado pela voz de quem vive no silêncio em “O velho e o cão” e revela como a vida pode ser compreendida de forma mais simples e instintiva.
Na obra, Machado constrói uma história sensível e surpreendente ao dar voz a quem normalmente apenas observa: Brown, seu cachorro de estimação.
Com essa perspectiva, o livro acompanha a relação do animal com o universo ao seu redor, explorando não apenas aspectos de convivência, mas as memórias, instintos e descobertas que moldam a jornada do protagonista.
O livro se destaca pelo ineditismo da narrativa: não se trata apenas de relatar a jornada do melhor amigo do homem, mas de permitir ao leitor habitar um lugar sensorial e intuitivo.
A linguagem acompanha essa proposta, fluindo entre o impulso e a reflexão, criando uma experiência que é, ao mesmo tempo, leve e profundamente transformadora.
Ao criar a trajetória de Brown, as famílias com quem morou, as relações dele com humanos e outros animais, desenhando sua personalidade, Fernando causa um incômodo como a sensação de desencaixe do personagem.
Entre abandonos, violências silenciosas e tentativas frustradas de pertencimento, ele atravessa experiências que o empurram para um estado limite: o de sentir tudo sem conseguir explicar nada.
A obra trata de um percurso marcado por rupturas, como lares sem acolhimento, afetos instáveis e o instinto cobrando um preço alto ao machucar o próprio dono.
Em um dos momentos mais intensos, diante da possibilidade de perder seu humano, o único que realmente entendeu suas necessidades, o animal entra em desespero absoluto – a ponto de não haver sentido em continuar.
Desse atravessamento, nasce outro jeito de enxergar a vida.
Meu instinto canino, fiel e imutável, não aceitaria dividir minha lealdade entre dois humanos.
Essa ideia me trazia um misto de expectativa e inquietação.
De um lado, havia o desejo de retribuir o afeto que me cercava; do outro, o medo de errar na escolha — ou de magoar quem não fosse o escolhido.
Com os pensamentos se agitando, eu observava cada gesto deles — tentando descobrir quem seria mais capaz de compreender minhas manias, meus medos, a quietude que, às vezes, me acompanhava. (O velho e o cão, p.
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