Após escapar da caça, baleia quase extinta no Brasil enfrenta nova ameaça
Após escapar da caça, baleia quase extinta no Brasil enfrenta nova ameaça - Projeto de lei que reduz área de proteção na costa catarinense avança e preocupa pesquisadores dedicados à recuperação da baleia-franca-austral, que é fundamental para a biodiversidade.A baleia-franca-austral é um mamífero de dimensões esmagadoras: em média, 16 metros de comprimento e mais de 60 toneladas. Mas nada devagar e, ao se aproximar de mergulhadores e embarcações, mostra curiosidade nada agressiva. Em inglês, ficou conhecida como "right whale", a "baleia certa". Certa para a caça: antes do petróleo, sua espessa camada de gordura virava óleo para iluminação.
Migratória, passa boa parte do ano se alimentando na Antártida e, na época reprodutiva, nada mais de 3 mil quilômetros rumo às águas quentes do Hemisfério Sul para parir, longe de predadores como orcas e tubarões. Mas desde 1602, quando foi concedida a primeira outorga para caça de baleias no país, até 1985, quando o governo suspendeu a atividade, a espécie encontrou no Brasil um inimigo ainda mais eficiente.
Por quase quatro séculos, a caça foi um dos pilares econômicos do país, da Colônia à República, com "armações" (estações de processamento) espalhadas do Recôncavo Baiano a Santa Catarina. "A atividade era bastante cruel. Arpoavam o filhote, que é mais curioso, para atrair a mãe", conta a bióloga Karina Groch.
Na prática, a caça já havia cessado antes da proibição oficial, porque não havia mais baleias na região. Dada como extinta no país nos anos 1970, ela só voltaria a ser vista em 1982, quando uma mãe e seu filhote foram avistados em Imbituba, no litoral sul de Santa Catarina.
"Acreditamos que sobraram alguns indivíduos aqui no Sul, e foi a memória genética e cultural que fez os primeiros retornarem para esta região", explica Groch, que é diretora de Pesquisa do Projeto Franca Austral (ProFRANCA), do Instituto Australis, criado no mesmo ano da "redescoberta", para monitorar a população sobrevivente e garantir sua recuperação no litoral brasileiro.
Hoje, o projeto estima em cerca de 800 as baleias-francas que frequentam o litoral brasileiro, crescendo 4,8% ao ano, uma taxa considerada expressiva. Ainda pequena, a população segue concentrada em Santa Catarina. Em 2025, a espécie conseguiu passar de "em perigo" para "vulnerável" na Lista Nacional de Espécies Ameaçadas de Extinção.
"Estima-se que a população total do Hemisfério Sul seja hoje 20% do que existia antes da caça", diz Groch. Não há números oficiais da época, mas estudiosos calculam entre 70 mil e 90 mil indivíduos na região – hoje, são cerca de 13,6 mil.
Quarenta anos após o fim da caça, pesquisadores e ambientalistas veem novos riscos, agora vindos do Congresso Nacional. Em 2025, três propostas legislativas que buscam reduzir ou extinguir a APA foram protocoladas.
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