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Ciência

Valeu, guerreira: Zélia Amador de Deus e a universidade que aprendeu a ouvir o Norte

Por Redação 5News · · com informações de Amazônia Real
Valeu, guerreira: Zélia Amador de Deus e a universidade que aprendeu a ouvir o Norte

Valeu, guerreira: Zélia Amador de Deus e a universidade que aprendeu a ouvir o Norte

A passagem de Zélia Amador de Deus pela vida não se encerra com sua morte, ocorrida em Belém no dia 8 de setembro. Seu falecimento deixa uma ausência palpável, mas igualmente evidencia uma contribuição que permanece viva em espaços diversos: salas de aula, grupos de pesquisa, instituições públicas, comunidades quilombolas, políticas de Estado e na formação de inúmeras gerações de alunos que tiveram contato com seu pensamento. Professora emérita da Universidade Federal do Pará, artista de relevância reconhecida, pesquisadora respeitada e figura central na luta contra o racismo no Brasil, Zélia deixou a vida aos 74 anos de idade. Um símbolo particularmente eloquente de seu legado pode ser visto no campus da UFPA: um baobá plantado em sua homenagem em agosto do ano passado, poucos dias antes de seu desaparecimento. Aquela árvore, carregada de significado na tradição africana ao representar ancestralidade e memória coletiva, transcendeu o caráter meramente protocolar. Funcionou como reconhecimento institucional de que certos indivíduos não apenas circulam por uma universidade. Eles a modificam desde dentro, ajudando a criar as estruturas profundas que a mantêm erguida.

Uma trajetória de deslocamentos

A história de Zélia foi construída através de sucessivos deslocamentos geográficos, sociais e intelectuais. Saiu da ilha do Marajó rumo a Belém. Transitou da periferia da Sacramenta para dentro dos muros universitários. Moveu-se do palco para a sala de aula. Transformou sua militância contra injustiças raciais em contribuições para a formulação de políticas públicas. E levou a experiência específica de ser mulher negra na Amazônia para o diálogo com discussões de alcance nacional e até internacional.

Seu ponto de partida foi humilde. Nascida no Marajó, Zélia cresceu em uma família que enfrentava de maneira crua a pobreza, a discriminação racial e o trabalho precário. Sua mãe trabalhava como empregada doméstica, ofício que marcou profundamente sua compreensão das desigualdades. Frequentou escolas públicas na região e conseguiu prosseguir seus estudos, ingressando na Universidade Federal do Pará para cursar Licenciatura em Língua Portuguesa. Não era um percurso comum para alguém de sua origem social naquela época.

Um detalhe que ela mesma recordava durante sua vida era o conselho oferecido por sua avó: uma frase que resumia a resistência necessária a mulheres negras de sua geração. Aquelas palavras — "tu és preta, mas não baixa tua cabeça" — funcionaram como bússola durante toda sua trajetória. Indicavam que a cor da pele não deveria ser motivo para rebaixamento ou aceitação passiva de injustiças.

Cinco décadas transformando a UFPA

A relação de Zélia com a Universidade Federal do Pará não começou quando ela se formou. Iniciou-se em 1971, e atravessou nada menos que 55 anos de sua vida. Durante esse período, a instituição não funcionou apenas como lugar de aprendizagem para ela. Tornou-se espaço que ela ajudou a reformular desde dentro.

Seu papel extrapola a simples enumeração de cargos que ocupou. Zélia foi articuladora de mudanças institucionais profundas. Atuou para que a universidade desenvolvesse sensibilidade em relação aos saberes, às narrativas e às preocupações históricas do povo negro, particularmente daquele enraizado na Amazônia. Seu trabalho como pesquisadora abriu caminhos para que outros pesquisadores pudessem investigar temas antes negligenciados pela academia.

Simultaneamente, manteve-se ativa no teatro e nas artes performáticas, compreendendo essas linguagens como instrumentos de educação e transformação. Participou de eventos acadêmicos de grande envergadura, como o COPENE — Congresso de Pesquisadores e Pesquisadoras Negros —, levando contribuições que conectavam discussões sobre negritude com reflexões específicas sobre a realidade amazônica. Circulou por universidades do estado do Amazonas, participando de palestras e atividades que amplificavam seu alcance intelectual.

Contexto: a luta antirracista na academia brasileira

Compreender plenamente a magnitude da contribuição de Zélia Amador de Deus requer situar seu trabalho dentro da história mais ampla da luta contra o racismo na academia brasileira. Durante a maior parte do século vinte, as universidades brasileiras permaneceram como instituições majoritariamente brancas, refletindo e perpetuando as hierarquias raciais da sociedade. A população negra estava sistematicamente sub-representada tanto entre estudantes quanto entre professores.

Ativistas como Zélia foram precursores de mudanças que só ganhariam impulso maior com políticas de ações afirmativas nas últimas décadas. Ela vivenciou na pele a exclusão, a micro-agressão cotidiana e a invisibilização que marcaram a experiência de pessoas negras em espacos de saber. Sua escolha de permanecer na universidade — não apenas como aluna, mas como professora, pesquisadora e agente de transformação — funcionou como desafio permanente à ordem estabelecida.

O termo "professor emérito" que a acompanhava refere-se a um reconhecimento de excelência e contribuição extraordinária à instituição ao longo de muitos anos. No caso de Zélia, esse título carregava significado adicional: representava a aceitação institucional de que sua presença havia sido fundamental para que a UFPA começasse a se ouvir melhor, a escutar as vozes e perspectivas que historicamente havia negligenciado.

A morte de Zélia aos 74 anos representa perda significativa em um momento em que o Brasil segue enfrentando desafios estruturais relacionados a desigualdades raciais. Sua trajetória oferecia modelo alternativo de como instituições podem ser transformadas de dentro, e como o conhecimento acadêmico pode ser articulado com militância social sem prejuízo a nenhum dos dois campos.

O que acompanhar

Os próximos meses revelarão como a UFPA e demais instituições que se beneficiaram de sua presença decidem preservar seu legado. Possíveis desdobramentos incluem homenagens institucionais, publicações dedicadas a compilar seus textos e pesquisas, continuidade de grupos de pesquisa que ela orientava e potencial institucionalização de seus ensinamentos em programas de pós-graduação.

Igualmente importante será acompanhar como seu exemplo de vida intelectual e militante será transmitido para novas gerações de pesquisadores e ativistas negros na Amazônia. A obra que deixa — em forma de livros publicados, pesquisas realizadas, estudantes formados e políticas públicas influenciadas — continuará gerando desdobramentos que ainda não podem ser completamente previstos. O baobá plantado em sua homenagem crescerá, servindo como testemunho vivo de que certas pessoas não apenas passam por instituições. Elas as enraízam.

Principais pontos:

• Zélia Amador de Deus faleceu em Belém no dia 8 de setembro aos 74 anos, deixando legado como professora emérita da UFPA, artista e militante histórica do movimento negro.

• Sua relação com a Universidade Federal do Pará iniciou em 1971 e se estendeu por 55 anos, durante os quais ajudou a transformar a instituição para maior abertura às perspectivas e saberes negros.

• Nascida no Marajó em família de baixa renda com mãe empregada doméstica, Zélia cursou Licenciatura em Língua Portuguesa e se tornou referência em pesquisa acadêmica conectada à militância antirracista.

• Um baobá foi plantado em sua homenagem no campus da UFPA em agosto, símbolo que representava sua contribuição para enraizar a instituição em valores de transformação e escuta das comunidades historicamente negligenciadas.

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Matéria produzida pela Redação 5News com apoio de inteligência artificial a partir da apuração de Amazônia Real — os fatos do episódio vêm da matéria original; o contexto usa informação pública consolidada. Veja nossa política editorial. A matéria completa, com todo o contexto, está em amazoniareal.com.br — o conteúdo pertence a Amazônia Real.

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