Muito além de Trump: por que os EUA cobiçam a Groenlândia?
Quando o presidente norte-americano Donald Trump disse publicamente que estava cogitando a compra da Groenlândia em 2019, ainda em seu primeiro mandato, o caso foi tratado como piada. Nas redes sociais, houve até quem tentasse estabelecer um preço para a transação baseado no custo do pote de arenque em conserva.
Cinco anos depois, de volta à Casa Branca, Trump voltou a expressar o desejo de incorporar a Groenlândia — empregando, dessa vez, uma linguagem bem mais agressiva, que não dava margem a interpretações cômicas. O republicano disse que a ilha seria tomada pelos Estados Unidos “de uma forma ou de outra” e se recusou a descartar o uso de força militar. Ameaçou a Dinamarca com a imposição de tarifas e até nomeou Jeff Landry como seu emissário para trabalhar em favor da anexação. Em julho deste ano, durante a reunião de cúpula da OTAN, Trump voltou a defender que os norte-americanos deveriam tomar a ilha.
A imprensa reagiu tratando tais declarações como uma excentricidade típica de Trump, mas a ideia de anexar a Groenlândia não é uma novidade. Desde o século 19, diversos líderes republicanos e democratas demonstraram interesse em dominar a ilha, vista como um ativo estratégico para os interesses econômicos e militares de Washington.
Os primeiros habitantes conhecidos da Groenlândia foram povos paleo-inuítes, que chegaram à região há milhares de anos, em diferentes ondas migratórias que partiam do continente americano. Os ancestrais diretos dos atuais nativos groenlandeses, pertencentes à Cultura Thule, estabeleceram-se na ilha a partir do século 13. A população indígena desenvolveu formas de vida adaptadas ao ambiente ártico, baseadas sobretudo na caça de focas, baleias, caribus e outros animais.
A colonização europeia da Groenlândia teve início no ano 985, quando o explorador nórdico Erik, o Vermelho, exilado da Islândia, estabeleceu assentamentos no sudoeste da ilha. Os colonos escandinavos criaram três principais comunidades, os assentamentos Oriental, Médio e Ocidental, dedicadas à criação de gado, à prática limitada da agricultura, à caça e ao comércio com a Europa.
No século 13, a Groenlândia se tornou parte do Reino da Noruega, que posteriormente se fundiu à Dinamarca na União de Kalmar. Os assentamentos nórdicos na ilha, no entanto, começaram a entrar em declínio a partir do século 14, em função das mudanças climáticas ocorridas durante a “Pequena Idade do Gelo” e das dificuldades econômicas derivadas do isolamento geográfico.
Um novo impulso colonizador ocorreu a partir do século 18, após o missionário luterano Hans Egede iniciar a cristianização dos inuítes e a integração da Groenlândia às rotas comerciais europeias. A união entre Noruega e Dinamarca foi desfeita em 1814 pelo Tratado de Kiel, em meio às Guerras Napoleônicas.
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