O tamanho da crise do Japão pode determinar o futuro de Trump
Enquanto se encontra imerso em tensões estratégicas com seus vizinhos, o governo de extrema direita do Japão agora passa a ser atormentado com uma crise econômica reveladora: o iene, a moeda nacional, começa a sofrer uma desvalorização, enquanto a inflação segue dando pontadas, contrariando o mito da economia deflacionária e eterna portadora de juros baixos ou negativos – ponto que é central para a economia americana.
Os americanos se tornaram cada vez mais dependentes do Japão em termos de financiamento de sua dívida pública – ainda mais depois que os chineses tiraram o pé do mercado da dívida americana e se tornaram até um perigo, diante da rodada de tensões iniciada por Donald Trump desde 2017. Os famosos juros baixos e estáveis do Japão serviam como engate para uma série de operações vitais do Tesouro americano.
Investidores locais e internacionais tomavam empréstimos baratos no Japão, rapidamente revertidos na compra de títulos da dívida americana – estes com juros baixos, mas superiores aos praticados dentro do Japão. No fim, isso aparecia registrado como dívida americana com o Japão, apenas pelo fato dessa dívida estar custodiada lá, além do fato de instituições japonesas muitas vezes terceirizarem esses negócios para paraísos fiscais, alguns de renome.
Essa operação, que não é nova, ganhou força quando os Estados Unidos impuseram, via os famosos Acordos Plaza de 1985, o fim do Japão como uma economia produtiva, punindo duramente o povo daquele país, mas apenas rearranjando o jogo com as elites dele: da indústria para as finanças. Para entender como isso se deteriorou, é preciso voltar à história recente do Japão e entender a conjuntura do país.
O Japão era uma espécie de modelo de sucesso do capitalismo até os anos 1980. Muitas vezes apresentado como exemplo de que a subserviência aos Estados Unidos pode gerar prosperidade e até espaço de manobra – os avanços do capitalismo japonês eram notáveis, e o país inclusive substituía os Estados Unidos no imaginário futurista, em algo como um caso de um dominado que colabora com o dominador e caminha para substitui-lo.
A rebelião da indústria americana durante a era Reagan fez com que o governo americano impusesse um freio aos japoneses. O câmbio japonês seria valorizado artificialmente e o próprio governo colaboraria em parar de disputar o mercado americano, sobretudo de automóveis e eletrodomésticos – mas o que pode ser lido como uma “derrota nacional” era só mais um reajuste da relação entre as elites americana e nipônica.
O Japão se tornou uma economia estagnada, mas com as elites ganhando dinheiro em outro ramo que não a indústria para exportação, gerando uma dura punição para as classes médias e baixas.
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