Cupins criam ar-condicionado natural eficiente que funciona sem energia
Sem ventiladores ou eletricidade, cupinzeiros conseguem movimentar o ar, eliminar dióxido de carbono e reduzir variações de temperatura. O segredo está na arquitetura dessas construções.
Um estudo publicado na revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS) ajuda a explicar como essa ventilação acontece. Pesquisadores mediram diretamente a temperatura, o movimento do ar e a concentração de dióxido de carbono em cupinzeiros da espécie Odontotermes obesus, na Índia.
Durante o dia, o Sol aquece os canais mais próximos da superfície. O ar quente sobe e cria uma corrente que movimenta o ar no interior da estrutura. À noite, quando a parte externa esfria, o sentido do fluxo se inverte.
Esse ciclo leva o dióxido de carbono acumulado no centro do ninho até as paredes externas, por onde o gás pode escapar. Por isso, os cientistas compararam o cupinzeiro a um pulmão que "respira" uma vez por dia.
"O que é notável é como os cupins usam essas variações", afirmou o pesquisador L. Mahadevan em uma divulgação da Universidade Harvard. Segundo ele, os animais aproveitam as oscilações de temperatura do ambiente para ventilar os ninhos.
Outro estudo, publicado na revista Science Advances, investigou dois cupinzeiros da espécie Trinervitermes geminatus, coletados no Senegal e na Guiné. Tomografias de raios X revelaram que suas paredes possuem uma rede de poros microscópicos interligados.
Os espaços maiores criam caminhos contínuos para a passagem do ar. Segundo as simulações , eles tornam as paredes entre dez e cem vezes mais permeáveis do que seriam se tivessem somente poros pequenos. Também ampliam de três a oito vezes a capacidade de dispersão do dióxido de carbono.
Isso ajuda a explicar como cupinzeiros aparentemente fechados conseguem trocar gases com o ambiente. Quando há pouco vento, o CO2 atravessa as paredes principalmente pela diferença de concentração entre o interior e o exterior. Com ventos mais fortes, as mudanças de pressão também favorecem a circulação.
A porosidade ainda reduz a transferência de calor e ajuda na drenagem. Depois da chuva, os canais maiores liberam a água mais rapidamente e permitem que a ventilação seja restabelecida. O processo também contribui para a secagem e a estabilidade da construção.
Uma revisão publicada em 2025 reuniu aproximadamente 70 anos de pesquisas sobre ventilação e regulação térmica em cupinzeiros. Nos trabalhos analisados , a temperatura dentro dos ninhos apresentou variações diárias geralmente entre 0 °C e 4 °C. No ambiente externo, as oscilações chegaram a 20 °C.
Cupinzeiros maiores costumam apresentar maior estabilidade porque possuem mais massa e conseguem absorver e liberar calor lentamente. A composição do solo, a incidência de Sol, a umidade, o vento e o formato da estrutura também influenciam o resultado.
Isso não significa que o interior permaneça sempre na mesma temperatura . O ambiente externo continua exercendo influência, mas a arquitetura do cupinzeiro reduz a intensidade das mudanças.
Essa capacidade chamou a atenção durante uma expedição científica realizada na região da Chapada dos Veadeiros, em Cavalcante (GO).
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