O chute perfeito
Administrador de empresas pela FGV, doutor em urbanismo pela FAU-USP e autor do livro 'Espaço Público e Urbanidade em São Paulo'
Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler.
Uma vez, uma revista perguntou a Rubem Braga quais eram as dez coisas que faziam a vida valer a pena. O gigante da crônica não se escondeu e destilou belezas. Uma delas era tão específica que nunca esqueci: "Quando você vai andando por um lugar e há um bate-bola, sentir que a bola vem para seu lado e, de repente, dar um chute perfeito e ser aplaudido pelos serventes de pedreiro".
Bem no meio da praça Benedito Calixto , em Pinheiros , tem um campinho de futebol de salão, de cimento gasto. Passo por ali regularmente, e paro sempre para tomar um café ali em frente. Enquanto espero, na calçada, admiro o jogo barulhento e viril.
"Eles trabalham por aqui e jogam futebol na hora da folga", me diz o cara que faz o café.
Os jogadores dobram as barras das calças e fazem a divisão clássica no futebol brasileiro, os de camisa versus os sem camisa. A maioria está de tênis, um usa sapatos e dois jogam descalços mesmo. As divididas são ríspidas e sobram botinadas. A comemoração de um gol não tem dancinha. Quem sofre falta não reclama e volta logo à guerra.
Outro dia, eu passei por ali apressado, sem tempo para o café, carregando mochila, computador, livros e um casaco inútil. Ouvi um chute fortíssimo, olhei por reflexo, e vi quando a bola bateu no joelho do defensor e espirrou para fora do campo, por cima das grades, passou por entre as folhagens das árvores, quicou, rolou por cima do gramado, atravessou a rua, subiu na calçada, bateu na parede do café e parou, bem do meu lado. Os jogadores gritaram e pediram a bola de volta.
Congelei e entendi a importância do momento. O mais sensato seria levá-la embaixo do braço até o campinho, onde abriria a portinhola e daria nas mãos de alguém. Um chute parecia impossível: havia dezenas de fios nos postes da calçada, duas árvores grandes e uma grade alta no caminho. Para piorar, havia testemunhas. Duas vendedoras da loja ao lado que fumavam. Uma senhora e sua cuidadora. O cara do café. E os jogadores impacientes.
Eu joguei futebol numa rua sem saída todas as tardes da minha infância, mas nunca melhorei muito. Evitávamos chutar forte no golzinho de tijolos, para que a bola não caísse no quintal da vizinha sádica, que se divertia em furá-las antes de devolver.
Décadas depois, passava horas no gol a gol com meu filho no quintal. A experiência não me credenciava para a ousadia. Por alguma razão proustiana ou freudiana, pensei em Rubem Braga. E decidi: ia tentar o chute impossível.
Respirei, joguei a bola para cima e, enfiei o pé, como um goleiro num lançamento longo. O chute saiu perfeito: a bola passou abaixo dos fios da calçada, acima das árvores da praça e bem acima da grade do campo. Mas foi melhor que isso. Ao cair, verticalmente, um jogador sem camisa matou a bola no peito, e controlou no pé. Depois, apontou para mim e fez um gesto de aplauso. Meus vizinhos de calçada murmuraram em apoio.
Saí de lá transcendido. A cena é prosaica, eu sei.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em noticias.uol.com.br — o conteúdo pertence a UOL Notícias.