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Por que as pessoas acreditavam na lenda de um cordeiro que nascia de árvore

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Por que as pessoas acreditavam na lenda de um cordeiro que nascia de árvore

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De todas as maravilhas testemunhadas por John Mandeville, um cavaleiro inglês do século 14, nenhuma foi mais surpreendente do que o fruto "maravilhoso" de uma árvore que ele encontrou durante suas viagens pela Índia .

O fruto parecia uma cabaça, mas, ao abri-lo, encontravam-se minúsculos cordeiros de carne e osso. Outro viajante medieval, o frade italiano Odorico, também percorrera boa parte da Ásia e ouvira falar dos mesmos frutos por meio de "pessoas dignas de crédito".

Outros relatos sugeriam que, quando o fruto amadurecia, o resultado era um cordeiro plenamente formado —ou algo muito parecido— ligado ao caule da planta por um cordão umbilical. O cordeiro pastava perto das raízes, mas, quando toda a relva ao seu alcance era consumida, o cordeiro vegetal morria.

Leitores com sólidos conhecimentos de botânica talvez já saibam que o cordeiro vegetal não existe. Na verdade, é provável que John Mandeville tampouco tenha existido —seu célebre relato de viagem foi escrito por autores desconhecidos e baseado em grande parte em obras anteriores, entre elas a de Odorico.

Isso, porém, não impediu que histórias sobre o animal circulassem e fossem aceitas entre os eruditos da Europa durante séculos. O barão von Herberstein, embaixador na Rússia quase dois séculos após o relato de Mandeville se popularizar, confessou que só acreditou na história depois que muitas "pessoas de confiança" lhe disseram ter visto e provado o delicioso híbrido de planta e animal.

"Foram necessários quase quatro séculos após o surgimento dos escritos de Mandeville para que botânicos e biólogos europeus reconhecessem o cordeiro vegetal como um mito", escrevem Cailin O’Connor e James Owen Weatherall em The Misinformation Age (2019). Essa lentidão reflete o fracasso de uma mentalidade tipicamente medieval ou traz lições para os dias de hoje?

Considere alguns casos um pouco mais recentes. James Lind, cirurgião da Marinha Real britânica, é celebrado hoje por descobrir que frutas cítricas curavam o escorbuto , após realizar um ensaio clínico rudimentar em 1747. O único problema é que ele não fez nada disso.

Lind de fato realizou um teste, mas ele praticamente não alterou a percepção de ninguém sobre as frutas cítricas. Tanto antes quanto depois do experimento de Lind, alguns marinheiros acreditavam que elas eram benéficas, mas seu trabalho teve pouco impacto.

Seu "Treatise of the Scurvy" (1753) é um emaranhado de ideias confusas, embora a breve descrição do teste, quase 200 páginas adiante, seja suficientemente clara. Lind acabou recomendando um xarope de frutas cítricas fervido, e a proposta foi amplamente ignorada —o que não foi uma grande perda, pois ferver o suco de limão destrói a vitamina C e, assim, o torna inútil como tratamento para o escorbuto.

As frutas cítricas foram adotadas pela Marinha Real meio século depois, não devido a um ensaio clínico, mas porque foram recomendadas por um médico de grande prestígio, Gilbert Blane.

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