A culpa que nunca foi dela
Numa audiência recente, ouvi uma mulher relatar a agressão que sofrera do ex-companheiro.
O soco na face a deixou desacordada e sangrando; as lesões constam de laudo.
Nada disso, porém, foi o que mais me marcou.
O que me marcou foi a pergunta que ela dirigia a si mesma, em voz alta, diante do juízo: será que eu não dei motivo?Aquela mulher fora golpeada em local público, sem qualquer discussão que antecedesse o golpe, por ciúme de um homem do qual já estava separada.
E, ainda assim, procurava no próprio comportamento uma explicação para a violência.
Descreveu as agressões passadas como "reação rápida" dele, como se fossem fenômeno natural, involuntário, quase meteorológico.
Contou que passou a sentir vergonha (a vergonha que deveria ser do agressor).
E confessou que não frequenta mais o lugar onde tudo aconteceu.
Ele permaneceu; ela se retirou.Há, nessas poucas frases, o retrato de uma cultura inteira.
A cultura que ensina a mulher a se perguntar o que fez de errado quando é agredida, em vez de exigir do homem que responda pelo que fez.
A que trata o ciúme como prova de amor e a posse como direito, mesmo depois do fim do relacionamento.
A que transfere para a vítima a honra ferida e a vergonha pública, invertendo os papéis de quem deveria se envergonhar.
É o machismo operando em seu nível mais profundo: não apenas na mão que agride, mas na consciência de quem apanha e ainda assim duvida de si.Não por acaso, recentemente vivemos o mês de agosto em que o país inteiro se volta para esse problema.
O Agosto Lilás, campanha nacional instituída pela Lei nº 14.448/2022, ancorada no aniversário da Lei Maria da Penha, convoca-nos a não naturalizar a agressão, a reconhecer os sinais de risco e a agir cedo.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em atarde.com.br — o conteúdo pertence a A Tarde.