Um fóssil escocês carregou por décadas o rótulo de réptil antigo até raios X atravessarem a rocha e revelarem brânquias internas
Tomografia de síncrotron revelou brânquias e milhares de dentículos em fóssil de 345 milhões de anos, alterando sua classificação evolutiva
Durante mais de três décadas, um pequeno fóssil encontrado na Escócia ocupou uma posição importante na história da evolução dos répteis. Conhecido como Westlothiana lizziae, o animal viveu há aproximadamente 345 milhões de anos e parecia apresentar adaptações à vida terrestre. Entretanto, novas imagens de raios X revelaram brânquias internas e milhares de pequenos dentículos, características incompatíveis com sua antiga classificação. Publicada em setembro de 2026, a descoberta mostrou que o fóssil pertencia a uma linhagem mais antiga de vertebrados de quatro membros, provavelmente adaptada tanto à água quanto à terra.
O fóssil foi descoberto em 1984 pelo paleontólogo amador Stan Wood, na pedreira de East Kirkton, perto de Bathgate, na Escócia. O esqueleto, com menos de 20 centímetros de comprimento, ficou preservado entre duas placas de rocha.
Descrito formalmente em 1990, recebeu o apelido de Lizzie por sua aparência semelhante à de um lagarto. Seus quatro membros, dedos com extremidades parecidas com garras e características das patas levaram os pesquisadores a relacioná-lo aos primeiros amniotas, grupo que inclui répteis, aves e mamíferos. Essa interpretação, porém, já era discutida antes da nova pesquisa.
Os pesquisadores utilizaram tomografia por raios X de síncrotron, uma tecnologia capaz de examinar estruturas microscópicas dentro das rochas sem destruir o fóssil. O equipamento utilizado pertence ao European Synchrotron Radiation Facility, localizado em Grenoble, na França.
As imagens permitiram reconstruir digitalmente regiões do crânio e da mandíbula que haviam permanecido inacessíveis. O resultado revelou estruturas surpreendentemente primitivas, incluindo elementos ossificados de um aparelho branquial interno.
A tomografia mostrou numerosas estruturas semelhantes a dentes, chamadas dentículos, distribuídas pelo céu da boca e pela mandíbula. Esse padrão lembra características encontradas em vertebrados aquáticos antigos.
A presença dessas estruturas, associada ao aparelho branquial, sugere que o animal mantinha uma relação importante com ambientes aquáticos. Entretanto, os fósseis não permitem determinar exatamente sua alimentação nem quanto tempo passava dentro ou fora da água.
O estudo publicado na revista Nature , em 30 de setembro de 2026, foi liderado por Ben Igielman e Xavier Jenkins, com pesquisadores de instituições como a Universidade de Oxford e o Museu Americano de História Natural.
As análises filogenéticas reposicionaram Westlothiana entre os tetrápodes do grupo-tronco, anteriores à separação evolutiva entre as linhagens que deram origem aos anfíbios modernos e aos amniotas. Portanto, o animal não era um réptil, nem um ancestral direto demonstrado dos répteis atuais. Sua anatomia combina características primitivas com adaptações antes consideradas típicas de animais terrestres mais avançados.
A descoberta mostrou que adaptações relacionadas à locomoção terrestre não surgiram necessariamente todas ao mesmo tempo.
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