Estudo analisa impacto da informação na interação em comentários
Análise em 6.400 textos do “New York Times” mostra que o nível de informação das notícias muda a qualidade dos comentários
O jornalismo existe para contar às pessoas o que está acontecendo e fornecer a elas o que precisam para entender os fatos. Essa missão não se curva a orçamento ou formato. Uma reportagem sobre uma votação num conselho escolar e outra sobre preços de imóveis cumprem um papel essencial, em profundidades diferentes.
A premissa de ambos os tipos de texto é a mesma: informar mais e com precisão ajuda os leitores a formar seus próprios julgamentos e a participar do debate subsequente.
Queríamos saber como isso se reflete nas seções de comentários. Em artigo publicado na revista Journalism Studies , meu coautor, Sheizaf Rafaeli , e eu analisamos quase 1 milhão de comentários em 6.400 reportagens do New York Times publicadas de 2014 a 2022. Comparamos textos da seção de jornalismo de dados do jornal norte-americano, o The Upshot , com reportagens mais tradicionais veiculadas no mesmo período. ( Sou cientista social computacional e estudo como os ambientes de informação moldam quem participa do discurso público na internet. Rafaeli é presidente da Faculdade Shenkar, em Israel.)
Jornalistas de dados às vezes se perguntam se carregar um texto com dados pode sobrecarregar o leitor em vez de esclarecê-lo. Descobrimos que dar mais informações aos leitores muda quem comenta e como comenta.
Para cada reportagem, medimos diversos aspectos: a densidade de informações, a quantidade de números, fontes e gráficos utilizados, e o nível analítico do texto. Em seguida, analisamos os comentários. Mapeamos quantas pessoas comentaram, se interagiam entre si ou só reagiam ao texto, e o quanto seus comentários se apoiavam em fontes e linguagens analíticas em comparação com termos emotivos.
Identificamos que reportagens que combinavam estatísticas, fontes externas e visualizações de dados produziam um tipo diferente de seção de comentários. Independentemente do tema, os leitores tendiam a responder uns aos outros. Isso trouxe outra dúvida: o que os leitores realmente diziam entre si e quantos deles apareciam para opinar?
A resposta dependia do que pesquisadores chamam de “estilo afetivo” –o quanto um comentário é movido por sentimento em vez de razão. Por exemplo, num comentário de 2014 em um texto do The Upshot sobre a Copa do Mundo , um leitor escreveu: “Normalmente, as pessoas odeiam times bons porque eles ganham demais e riem dos times ruins. Portanto, se isso for verdade, torcedores de futebol são realmente únicos” . Trata-se de um comentário afetivo: um sentimento disfarçado de observação.
Em outra publicação do The Upshot , essa sobre o encolhimento da classe média nos EUA, um leitor comentou: “De 1950 a 1980, tivemos 30 anos de economia pelo lado da demanda. De 1980 em diante, tivemos 30 anos de economia pelo lado da oferta. Faça sua escolha” . Isso não é afetivo: é um argumento apresentado para o leitor ponderar. Reportagens mais densas e analíticas produziram muito mais desse segundo tipo de comentário.
As mesmas reportagens que produziram conversas mais afiadas e analíticas também geraram menos comentários.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em www.poder360.com.br — o conteúdo pertence a Poder360.