Iron Maiden faz show para fãs aguerridos em noite de eleição histórica em São Paulo
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"À tarde, o Brasil viveu a maior eleição da sua história. À noite, Iron Maiden ." Dizem que Kafka, fosse latino, seria escritor realista. Não é difícil imaginar, então, que suas célebres linhas sobre a catatonia moderna e o ato derradeiro da Primeira Guerra —a invasão da Rússia pela Alemanha— poderiam narrar o domingo brasileiro de 25 de outubro.
Às 20h40, poucos minutos após Lula assumir a dianteira na contagem de votos, dezenas de milhares de pessoas recebiam, no NuBank Parque , o Iron Maiden, uma das maiores bandas de rock do mundo em sua turnê de 50 anos —uma história de 16 passagens pelo país que se confunde com a própria democracia do Brasil.
A primeira vinda do Iron Maiden ao país foi na turnê de seu quinto álbum, "Powerslave" (1984). O show foi em 11 de janeiro de 1985, na primeira e histórica edição do Rock in Rio . Quatro dias depois de testemunhar uma juventude ensandecida pelo então novo bastião do heavy metal, com uma produção jamais vista por aqui, o Brasil assistia a um colégio eleitoral escolher um presidente em meio ao movimentos Diretas Já .
Com diversas formações, o Maiden veio ao país em meio aos apuros do princípio do Plano Real , tocou no ano dos protestos anti-Copa, veio em 2016 meses após a chegada de Michel Temer à presidência. O Brasil ao redor, é fato, nunca teve muito espaço na mitologia ao vivo de Eddie e companhia —no show deste domingo, alguns cantos de "olê olê Maiden" se misturavam a "Lula" e mãos em L.
O universo dos Irons ajuda a explicar também essa relação ambivalente da maior banda de metal do mundo, seus fãs aguerridos e o mundo —este um tema incontornável a algumas linhas do rock, como o punk e o hardcore. Em meio século de carreira, a banda construiu um imaginário tão único entre mitos antigos, literatura obscura e histórias de guerra que seus riffs em três guitarras tocam esquerda, centro e direita.
A figura do vocalista, Bruce Dickinson , comanda esse espírito com maestria. Sua verve operística, com figurinos teatrais e cantoria dramática, segue firme. "Esperamos 50 anos para chegar a esse ponto, e o Brasil sempre foi próximo aos nossos corações", disse ele pouco depois de tocarem a faixa "Infinite Dreams" —inédita nos palcos brasileiros.
É nessa canção que Steve Harris, fundador do grupo, também mostra seu comando. Seu baixo mantém a articulação pegada de notas e o estilo galopado, aspecto que também foi determinante para o Maiden consolidar-se algo próximo do thrash metal. Mas a velocidade é menos importante que a sinuosidade para a banda, que corresponde aos anseios do público por um heavy metal mais contemplativo.
" Powerslave ", faixa do álbum homônimo de 1984, é desses casos. As seções de complexidade de andamento e tempo e fraseados longos soam ao vivo com o mesmo vigor que tem no álbum —é esse arroz e feijão com tempero que o Maiden sabe fazer sem soar uma caricatura de si próprio, prato cheio para seus fãs anseiam.
Até o que beira o kitsch sai pela tangente pela entrega do grupo.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em www1.folha.uol.com.br — o conteúdo pertence a Folha · Ilustrada.