O mito do governo técnico
Com o início da campanha eleitoral, é muito comum que plataformas políticas se ergam sobre um mesmo axioma: um bom governo é um governo técnico.
Quanto mais especialistas, normas rígidas e ações protegidas da “politicagem”, maior seria a capacidade do Brasil solucionar seus problemas.
Palavras como “gestor”, “técnico” e “profissional” são frequentemente mobilizadas em narrativas que apresentam a política tradicional como sinônimo de atraso, enquanto o “novo” aparece como promessa de superação.
Essa forma de pensar não é nova.
Ao contrário, faz parte de uma longa tradição da história política brasileira.
Boa parte dos diagnósticos sobre o Estado brasileiro parte da ideia de que nossos problemas persistentes, como corrupção, violência e desigualdade, decorrem de heranças históricas.
O patrimonialismo, a formação de um capitalismo marcado por relações pessoais e a permanência de estruturas sociais oriundas da escravidão costumam ser apontados como obstáculos que impedem o país de se modernizar.
Não foram poucas as tentativas, tanto à esquerda quanto à direita, em regimes democráticos e autoritários, de apresentar determinado projeto político como responsável por inaugurar um “novo Brasil”.
Em comum, quase todas recorrem à História para construir um passado que precisa ser superado.
O curioso é que o desconhecimento dessas experiências faz com que nossa gramática política continue repetindo fórmulas muito semelhantes.
No fim, encontramos apenas um museu de grandes novidades.
Um dos exemplos mais emblemáticos encontra-se no Estado Novo (1937-1945).
A historiografia da administração pública mostra que aquele regime autoritário pretendia modernizar o país por meio de um Estado forte, capaz de promover integração nacional e desenvolvimento econômico.
Mas como confiar essa missão a uma máquina pública conhecida justamente pelo clientelismo? Continua após a publicidade A resposta veio na forma da profissionalização da administração pública.
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