Policial há 17 anos, delegado "caçou" traficantes e acabou preso entre eles
Policial há 17 anos, primeiro como escrivão em Goiás e depois como delegado da Polícia Civil de Mato Grosso do Sul desde 2014, Hoffmann D’Ávila Cândido e Sousa, que comandava a Denar (Delegacia Especializada de Repressão ao Narcotráfico) até fevereiro deste ano, usava o cargo público para servir como um dos chefes de uma organização criminosa formada por agentes de segurança pública e traficantes, responsável por desviar drogas apreendidas e revendê-las no mercado ilegal.
É o que consta da denúncia apresentada à Justiça pelo Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado) do MPMS (Ministério Público de Mato Grosso do Sul), como resultado da Operação Infiltrados, que coloca Hoffman no centro do esquema e aponta que sua autoridade permitia aos subordinados transformar operações policiais em fonte de abastecimento do tráfico.
A posição atribuída a Hoffmann pela investigação vai além de fazer vistas grossas às irregularidades.
Segundo o Ministério Público, ele exercia papel decisivo na estrutura criminosa, autorizava desvios de entorpecentes e estava entre os principais beneficiários financeiros da organização.
Segundo foi possível identificar com o trabalho investigativo, Hoffman passou de autoridade a criminoso pouco tempo depois de assumir o comando da Denar, em 2019.
A Operação Infiltrados aponta que o grupo atuou entre 2021 e 2026 e aproveitava a estrutura da Polícia Civil, o acesso a informações sigilosas e a custódia de entorpecentes para abastecer máfias do tráfico.
A denúncia apresentada em outubro inclui 23 pessoas, entre policiais, traficantes e outros envolvidos.
Já no início da peça, os promotores de Justiça destacam a relevância do delegado para o funcionamento do grupo: “Em síntese, as provas produzidas demonstram que HOFFMAN D’ÁVILA CÂNDIDO E SOUSA, na condição de Delegado de polícia, ocupava posição de comando e chancela institucional do esquema, sendo responsável por viabilizar a atuação da organização criminosa, da qual é um dos principais beneficiários.” O Gaeco reputa a Hoffman participação direta nos desvios de drogas tiradas de circulação pela própria unidade especializada.
Conforme outro trecho da denúncia, os policiais civis envolvidos, com auxílio de Lucas da Silva dos Santos, traficante conhecido como LK, “desviaram, em proveito próprio, substâncias entorpecentes de que tinham a posse em razão do cargo”.
Agente duplo - A contradição entre a atuação pública de Hoffmann e o papel atribuído a ele pelo Gaeco se evidencia em operação realizada em maio de 2024, quando divulgou aos jornalistas uma apreensão recorde de cocaína.
Em 22 de maio daquele ano, Hoffmann concedeu entrevista coletiva para falar da apreensão de 650 quilos de cocaína, avaliados em R$15 milhões.
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