‘Corisco & Dadá’: O cangaço como alegoria simbólica do Brasil
Os anos 1990 marcaram a retomada do cinema brasileiro.
Após a crise provocada pelo fechamento da Embrafilme no início da década, uma nova geração de filmes recolocou a produção nacional no circuito internacional e reconquistou o público.
Títulos como Carlota Joaquina (1995), O Quatrilho (1995), Baile Perfumado (1996), O Que É Isso, Companheiro? (1997) e Central do Brasil (1998) ajudaram a definir esse renascimento.
Em meio a esse movimento, Corisco & Dadá , lançado em 1996, acabou ocupando um lugar mais discreto.
Trinta anos depois, o longa de Rosemberg Cariry ainda não desfruta do mesmo reconhecimento de muitos de seus contemporâneos, embora permaneça como uma das obras mais singulares daquele período.
Se boa parte dos filmes do período buscava dialogar com um público mais amplo ou revisitar episódios históricos sob uma perspectiva mais convencional, Cariry optou por um caminho menos óbvio.
Corisco & Dadá não pretende apenas contar a história do último grande líder do cangaço e de sua companheira.
Seu interesse está em transformar esses personagens em figuras quase míticas, aproximando o cinema da tradição oral, da literatura de cordel e da religiosidade popular do sertão.
E essa é sua maior qualidade.
Rosemberg Cariry demonstra um domínio raro da geografia e da cultura nordestinas, filmando o sertão não como um cenário, mas como uma força que molda seus personagens.
A caatinga deixa de ser pano de fundo para se tornar parte da narrativa, carregando uma presença quase espiritual.
Nascido no município de Farias Brito, na região do Cariri cearense, o diretor conhece profundamente aquele universo e faz dessa intimidade o principal diferencial do filme.
A maneira como ocupa os espaços reforça constantemente essa proposta.
Em diversos momentos, Corisco e Dadá aparecem sozinhos em meio à vastidão da caatinga ou às margens de rios, cercados por um vazio que parece infinito.
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