Pirataria invade o streaming com músicas falsas em perfis oficiais de artistas famosos
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A voz de "Espumas ao Vento" demorou menos que os dois minutos e meio de duração de "Como", sua suposta canção, para responder em áudio. "Não é minha. Música minha nêgo escuta e já sai cantando. Isso aí é jazz —não tem nada a ver!"
A reportagem identificou dezenas de exemplos parecidos com "Como" . As principais plataformas de streaming estão repletas de faixas piratas, falsamente atribuídas a grandes nomes da música brasileira.
O próprio Fagner tem outra música falsa em suas páginas. Trata-se de "Sereia", suposta colaboração entre o cearense e Dominguinhos, morto em 2013. Na Deezer, elas são marcadas com o selo de conteúdo produzido por inteligência artificial .
As duas faixas são instrumentais —uma levada na guitarra e a outra no piano— e trazem nos créditos o nome Fábio Luiz como autor. Liv Moraes, cantora filha de Dominguinhos, não reconheceu a música como sendo de seu pai.
O Spotify afirmou em comunicado que os conteúdos detectados pela Folha foram "removidos dos perfis de artistas incorretos e, quando apropriado, da plataforma". "Também entramos em contato com os detentores de direitos relevantes para tratar as questões pendentes", diz o texto.
Segundo a empresa, "quando violações são identificadas ou quando recebemos uma reclamação de um detentor de direitos, analisamos e tomamos as medidas cabíveis". "Quando a titularidade de uma gravação é disputada entre duas gravadoras ou distribuidoras, trata-se de uma questão entre essas partes e, quando necessário, dos tribunais."
Dominguinhos é uma das maiores vítimas desse tipo de pirataria. Entre álbuns, EPs e singles, há mais de dez obras que não são suas em seu perfil de autor nas plataformas mais consumidas no Brasil —como Spotify, YouTube Music e Deezer.
Entre os títulos estão "Bossa Sensual", "Sensual Bossa Girl" e "Pecadora (Bossa Samba Jazz)". Quase tudo é instrumental e tem cara de inteligência artificial.
"É muito grave ver o nome do meu pai associado a lançamentos falsos que não têm qualquer relação com sua obra —alguns deles sem sua voz, sem sua sanfona e até atribuídos a parcerias que nunca existiram", diz Liv Moraes. "Esse tipo de conteúdo usa indevidamente o nome de Dominguinhos e de outros artistas consagrados, confundindo o público e desrespeitando seus legados."
Em julho, a Deezer informou que faixas geradas por IA superaram 50% dos novos uploads na plataforma. Disse que "removerá sistematicamente" esses conteúdos, "usados para fraudes em streaming", e que os excluiu das recomendações algorítmicas.
Procurada pela reportagem, a empresa afirmou que "não vamos conseguir colaborar com o tema".
As obras atribuídas a Dominguinhos, que não são identificadas como IA pela Deezer, foram quase todas publicadas por uma gravadora chamada El Gremio Ink. O selo, que produz vídeos com a tecnologia para o YouTube, é identificado como "distribuidor global de conteúdo de música" sediado na República Dominicana.
Sua página traz no e-mail de contato o nome de Rooby Jeantal —um dos supostos artistas da gravadora. O selo não respondeu aos contatos da Folha , bem como o YouTube Music.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em www.folha.uol.com.br — o conteúdo pertence a Folha de S.Paulo.