O Brasil não aprende
Editor-executivo, foi antes secretário de Redação e editor de Opinião. É mestre em sociologia pela USP
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"Por que a gente não aprende?". O economista Arminio Fraga repetiu angustiado essa indagação ao longo da entrevista recente com o colega Marcos Lisboa. Por que recorrentemente um braço do governo atiça o crédito e expande o gasto enquanto o outro levanta os juros? Por que a teima em desprezar as melhores evidências nos assuntos públicos? Por que tudo para já e para mim se o futuro é logo ali e para todos?
A capacidade coletiva de aprender parece relacionada ao desenvolvimento das nações. As organizações civis e estatais, que têm pretensão de durar para sempre, chocam-se amiúde com incidentes no curso de sua trajetória secular. Fome, revolta, peste, crise econômica, guerra e mudanças nos hábitos, nas ideias, nas tecnologias ou no clima as desafiam a adaptar-se. Como nem sempre o conjunto de crenças que trazem do passado produz respostas emancipatórias, muitas não escapam da gaiola da estagnação.
Financiar a guerra ou capturar os ganhos do comércio ultramarino? Conta Thales Zamberlan Pereira em sua tese de doutoramento que, na virada do século 18 para o 19, o algodão plantado no Maranhão e em Pernambuco chegava à Grã Bretanha com bonificação de preço em relação ao produto de outras regiões fornecedoras. A fibra nordestina adaptava-se melhor às máquinas de fiar que impulsionavam a Revolução Industrial. Exportações brasileiras chegaram a representar 40% dos desembarques de algodão pelo porto de Liverpool e seu valor superou por anos o da manufatura têxtil inglesa vendida ao Brasil.
Diante do choque que propiciou um boom de rendimentos a produtores maranhenses e pernambucanos, a Coroa portuguesa e logo depois o Império brasileiro que a sucedeu não tiveram constrangimentos —como por exemplo o que o Parlamento exercia sobre o monarca inglês— nem instrumentos alternativos —como o que o Banco da Inglaterra oferecia ao governo britânico— para extrair tudo o que podiam e não podiam dos agricultores. A fim de custear suas despesas com guerras e repressão de revoltas na Europa e no Brasil, ordenaram tarifaços sobre a exportação do algodão e confiscos de receitas provinciais.
A galinha dos ovos de ouro foi assassinada. O aperto nos custos dos exportadores reduziu a sua condição de competir e os expôs ao extermínio com a derrocada dos preços globais da commodity a partir de 1819. A navegação a vapor, que aumentava a eficiência de regiões competidoras como o sul dos Estados Unidos, no caso brasileiro esbarrava nos monopólios, regulamentações e centralizações de decisões. A resposta do Brasil ao choque remeteu-o à gaiola da estagnação. Não houve aprendizado.
A propósito da dificuldade de aprender, Thales Pereira e seu colega da FGV-SP Leonardo Weller acabam de lançar "Entre Crises", editado pela universidade em que atuam. No livro eles passam em revista as três primeiras décadas da política econômica sob a Nova República, da crise da dívida dos anos 1980 à Grande Recessão de 2014 a 2016.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em www.folha.uol.com.br — o conteúdo pertence a Folha de S.Paulo.