Ignorância assistida e o problema da supervisão humana
Um magistrado recebe na tela a minuta de uma decisão que não redigiu.
O texto vem articulado, cita normas, invoca precedentes e termina com dispositivo coerente.
Não interessa perguntar se deve conferi-lo, pois a resposta está posta em norma e em consciência profissional.
A questão mais difícil é saber com que faculdade o confere: se com uma faculdade efetivamente sua ou com aquela mesma que lhe faria falta para escrever a minuta por conta própria.
A pergunta tem história na psicologia experimental.
Em 1999, Kruger e Dunning sustentaram que a incompetência pode trazer consigo um segundo prejuízo, pois quem não domina determinada habilidade tende a dispor de menos recursos para reconhecer a própria insuficiência.
Nos experimentos que deram origem ao efeito que leva seus nomes, participantes do quartil inferior estimavam estar, em média, no percentil 62, embora seu desempenho os colocasse no percentil 12. [1] Muito antes da psicologia experimental, a literatura já desconfiava das relações entre saber e consciência do próprio saber.
Em Como Gostais , Shakespeare põe na boca de Touchstone a sentença segundo a qual o tolo pensa ser sábio, enquanto o sábio conhece a própria tolice. [2] A literatura dizia, em outro registro, algo sobre a velha dificuldade humana de conhecer os limites do próprio conhecimento.
Kruger e Dunning recorreram a imagem menos literária.
Certas lesões do hemisfério direito podem produzir anosognosia: o paciente fica paralisado de um lado do corpo, mas não reconhece a própria paralisia.
Diante de um copo colocado à sua frente, não consegue pegá-lo e explica o fracasso dizendo-se cansado ou distraído.
Falta-lhe não apenas a capacidade de realizar o movimento, mas a percepção adequada da capacidade que perdeu.
Seguiram-se mais de duas décadas de controvérsia, que reduziram a magnitude atribuível ao fenômeno e expuseram componentes estatísticos da curva original.
O núcleo que interessa aqui é mais estreito e sobrevive à caricatura.
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