Um brinde aos espíritos no Halloween
Coluna é assinada pelo jornalista e tradutor Daniel de Mesquita Benevides
Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler.
Os fantasmas se divertem e bebem tequila no dia de muertos, no México . É um folguedo feliz, com comida em altares floridos, lindas caveiras pintadas, reunião alegre dos parentes e uma possível abertura para o sobrenatural, como na animação " Viva - a Vida é uma Festa ".
No Brasil, o dia de finados é bem mais melancólico. A visita aos túmulos de entes queridos é uma pequena procissão de luto, momento de levar flores, acender velas, lembrar dos que se foram com gravidade e respeito —e chorar, talvez. Nada de bebidas.
Ambas as datas derivam da mesma origem. O mesmo vale, em certa medida, o Halloween , dia de cobrar doces ou travessuras nas portas de vizinhos, todos preparados com chocolates e balas, sorrisos e sustos fingidos, para alegria dos monstrinhos e fantasminhas. As fantasias vão de serial killers a princesas —o importante é enganar a rotina.
Em 998 d.C., em Cluny, na França , o abade Odilo (depois canonizado) determinou que o 2 de novembro, dia seguinte à data que comemora todos os santos ou aqueles que já estão no céu, fosse dedicado aos mortos que ainda estão no purgatório, sala de espera para o paraíso ou o inferno.
A tradição era respeitada dentro das igrejas ou em seus entornos. Os cemitérios no modelo conhecido hoje só surgiram no começo do século 19, em razão do crescimento da população —viva e morta— e de questões de saúde, já que o apodrecimento dos corpos podia propagar doenças, fora o cheiro difícil de suportar. O famoso Père Lachaise, em Paris, foi inaugurado no início dos anos 1800. (Oscar Wilde, ali enterrado, escreveu um dos melhores livros de terror de todos os tempos, "O Retrato de Dorian Gray".)
Por que a prática católica virou uma festa no México e nos EUA e um culto introspectivo no Brasil? Porque no país de Carlos Fuentes e Chaves houve influência das cores astecas e maias, ao passo que há indícios de que o Halloween descende de celebrações celtas marcando o início do inverno, com grandes fogueiras, carrancas animalescas e sacrifícios; depois o feriado foi cristianizado como all hallows’ eve, ou véspera do dia de todos os santos —daí o dia 31 de outubro.
Há inúmeros coquetéis que combinam com a data gringa —que os paulistas transformaram no dia do Saci, tentativa de espantar as bruxas forasteiras. O excelente corpse reviver, por exemplo, cuja tradução é ressuscitador de cadáveres —um levantador de ânimos, portanto. Ou o zombie, colorida e poderosa mistura tiki, com muitos ingredientes, que, tomada sem parcimônia, pode deixar a pessoa meio morta-viva.
Tem ainda o witches’ cauldron, caldeirão da bruxa, recomendado para puristas do Halloween por causa do nome e do uso do licor strega —strega é feiticeira, em italiano. O witches’ daiquiri é outra pedida.
Mas o melhor talvez seja o obituario. É uma variação do obituary, drinque clássico de New Orleans, cidade em que o Halloween é um carnaval, com desfile de carros alegóricos macabros, baile de vampiros e festival vodu. No lugar de old tom gim, entra tequila e mezcal.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em www.folha.uol.com.br — o conteúdo pertence a Folha de S.Paulo.