Quando os turcos olham para Ocidente
"Istambul/Constantinopla/Bizâncio foram todas cidades criadas, em parte, pela sua posição crítica abrangendo dois continentes.
Istambul é uma cidade que olha tanto para o Leste como para o Oeste, tanto para o Norte como para o Sul”, disse-me, um dia, em entrevista, Bettany Hughes, autora de Istambul: A História de Três Cidades .
Ora, aquilo que a historiadora britânica diz sobre Istambul também pode ser dito sobre a Turquia, basta ver como a sua política externa tem de lidar em simultâneo com os desafios vindos do Cáucaso, da Europa, do Mar Negro e do Médio Oriente.
Contudo, é inegável que o país tem uma vocação Ocidental que vem, certamente, do tempo de Mustafa Kemal Atatürk, mas até de mais atrás ainda, da época otomana.
E não me refiro sequer ao facto de boa parte da Europa (incluindo cidades como Budapeste, Belgrado e Atenas) ter chegado a ser governada pelo sultão a partir de Istambul, capital imperial que Atatürk optou por preterir em favor de Ancara no momento de escolher o centro político para a República, fundada em 1923.
Esta vocação Ocidental de que falo, e que torna a Turquia especial no mundo islâmico, é também cultural.
Atatürk foi decisivo quando trocou o alfabeto árabe pelo latino e, assim, marcou um antes e um depois.
Vejamos como o Irão, outra grande nação de maioria muçulmana, com uma civilização de 2500 anos, e uma língua que deu contributos extraordinários para a criação cultural do Islão, se mantém ligado ao alfabeto árabe.
No domingo, no âmbito da celebração dos 100 anos do estabelecimento das relações diplomáticas entre as duas repúblicas, a embaixada turca em Lisboa promoveu um concerto no Teatro São Luiz.
Foi um final de tarde marcado pela música clássica, com interpretações do violinista Cihat Askin e do pianista Çagdas Özkan, da soprano Burcu Hancí e do barítono Teyfik Rodos, com a participação também do guitarrista português Ricardo J.
Martins.
"No domingo, no âmbito da celebração dos 100 anos do estabelecimento das relações diplomáticas entre as duas repúblicas, a embaixada turca em Lisboa promoveu um concerto no Teatro São Luiz." O grande islamólogo britânico Bernard Lewis notou nas suas obras que o Islão foi célere a ir buscar tecnologia ocidental, primeiro militar e depois civil, e também modelos organizacionais, mas mostrou-se menos cativado pela música ocidental, ao contrário do que aconteceu noutras civilizações, como a chinesa, a coreana ou a japonesa, que se entusiasmaram, por exemplo, com a ópera e outras expressões da música clássica.
Lewis notava, porém, que com os turcos foi um pouco diferente de com outros povos de cultura islâmica, em especial depois das reformas de Atatürk.
A aposta no laicismo terá ajudado.
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