Mourinho veste Prada
Há um momento em O Diabo Veste Prada 2 que vale mais do que o guarda-roupa inteiro: o final do filme. Correndo o risco de estragar a surpresa, ei-lo: Andy volta a sentar-se à mesa com a amiga (quase amiga) que a traiu ao tentar comprar a revista onde trabalhava para ficar ela como directora e etc, etc. Não há qualquer confrontação entre as duas, não há sangue, não há sequer uma última cena de vingança satisfatória ou esgar de desprezo. Vemos apenas duas pessoas que decidem tacitamente continuar a existir uma ao lado da outra. Chamemos-lhe perdão, se quisermos ser bíblicos. Ou chamemos-lhe apenas aquilo que os americanos sabem fazer com uma naturalidade clínica: “just tag along” . Décadas de terapia condensadas num aperto de mão.
O filme insiste nesse ponto duas vezes, para quem não tiver percebido da primeira. Miranda Priestly descobre que alguém à sua volta (Andy) anda a escrever, ou pensou escrever, um livro sobre ela — e não faz disso um drama. Não só arquiva o assunto, como não julga e até incentiva o projecto. Mais tarde, ao reconhecer a Andy o mérito de lhe ter salvado o lugar, corrige-lhe a interpretação: tu fizeste isso por ti, não por mim. A frase (que não é literalmente esta) não traduz generosidade, é pura contabilidade. Miranda não perdoa porque é boa pessoa; ela perdoa porque descobriu mais cedo do que a esmagadora maioria que o mal cometido por outros não é definitivo e que de certa forma até é melhor saber com quem convivemos e que até nos pode dar algum jeito.
É esta aprendizagem — conviver com o mal sem o resolver — que atravessa também Mourinho , a nova série documental da Netflix. José Mourinho é apresentado como o treinador emocional, ao contrário do pai que, diz, escondia os sentimentos. Só que um homem que conhece as emoções para melhor as manipular não é emocional: é frio com sofisticação. Esmaga a própria sensibilidade aparente e transforma-a em instrumento. É essa ambivalência — sentir tudo para usar tudo — que sustenta o retrato.
O documentário, gravado ao longo de mais de dois anos e centrado nas passagens por Porto, Chelsea, Inter e Real Madrid, é sobretudo apressado no fim. Passa em bicos de pés pelo Fenerbahçe, Roma e Benfica: os três capítulos em que Mourinho caiu mais baixo, teve mais dificuldades e menos vitórias para exibir. Fica-se, previsivelmente, pelos altos e altíssimos, porque é aí que a série cumpre o seu verdadeiro objetivo: reduzir o homem à função. Mourinho não é ele, o pai, o marido, o colega; é apenas o treinador. Tudo o resto — as relações profissionais que raramente sobrevivem dois anos, os conflitos permanentes com presidentes e diretores desportivos, a manipulação de jogadores, árbitros e opinião pública — fica justificado pela vitória. O meio é mensagem, dizia McLuhan: aqui, o resultado é biografia.
E a vitória, note-se, funciona como dose narcotizante. A última Liga dos Campeões, o último título, é o único que conta; os campeonatos menores são medalhas que Mourinho arranca do peito mal as recebe.
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